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30 abril 2009

Cai a chuva abandonada


Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.


Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'
Imagem: http://lh4.ggpht.com/clarice.matos

Se


Se sou tinta
Tu és tela
Se sou chuva
És aquarela
Se sou sal
És branca areia
Se sou mar
És maré cheia
Se sou céu
És nuvem nele
Se sou estrela
És de encantar
Se sou noite
És luz para ela
Se sou dia
És o luar
Sou a voz
Do coração
Numa carta
Aberta ao mundo
Sou o espelho
Demoção
Do teu olhar
Profundo
Sou um todo
Num instante
Corpo dado
Em jeito amante
Sou o tempo
Que não passa
Quando a saudade
Me abraça.

Samuel Rolo

29 abril 2009

Inclinação do tempo


À tarde com as sombras inclinadas
nos prédios nas paredes
as aves perpetuam o regresso
do tempo que decai.

As aves que se inclinam na distância
das sombras desta tarde
cai a tarde com as aves e o tempo.
detrás da nua cortina.

A esquina da tua face inclinada
tecida sobre o tempo
uma ave borda o vôo na toalha.

A linha branca e a azul
a cor do céu azul da cor do céu
inclina o vôo da ave.
descanso a ave no tempo inclinado.

José Do Nascimento Félix – Angola/Portugal
Imagem: Sônia por Eduardo Poisl

28 abril 2009

Quero


Quero celebrar-te quando
o ocaso pinte rugas
no meu rosto.

Quero amar-te quando
o tremor de minhas mãos substitua
o de meus lábios quebrados

Quero contemplar-te quando
a emoção repouse em meu pátio
de tapete outonal.

Quero arrulhar-te quando
de meus seios só reste
em palpitar cansado.

Quero que me tomes pelas mãos
quando as pombas levantem o vôo,
e a solidão nos abrigue
em seu íntimo sonho.

Betssimar Sepúlveda – Venezuela
Imagem:Internet

27 abril 2009

CANTARES


Tu vives em minha mente...
Antes das estrelas iminentes
Antes do fogo dissimulado
Antes da luz reconstruída
Antes das vozes caladas
Antes da rosa na chuva
Antes de sua mão esquecida
Antes dos corações na carta de amor
Antes da tarde imóvel debaixo da árvore
Antes das coisas que seguem seu caminho
Antes da meia lua em frios corredores
Antes de seu cabelo já treva e passado
Antes das areias submersas
Antes dos jasmins no cinema rural
Antes de minha voz ainda futura
Antes das estátuas de andar vacilante
Antes do jardim de onde escrevo
Antes da bruma que habitas desolada
Antes da pedra movida casualmente
Onde fábula aprendida de vento e azinhal
ficas lentamente...
Apenas ternamente acalentada de olhos brilhantes
Te desejo ... embora talvez,
o rosto indiferente.

Antonio Brañas - Guatemala
Imagem: Internet

26 abril 2009

A GRAÇA


O que há de mais alvo
a graça é garça
pousada no alto da alma.
Em profundas águas
mergulha
e claridades instala.
E a fala
da graça é silêncio,
a vida, um momento,
e o gesto da graça
abraça
o claro sentimento.
Prendê-la, impossível;
voa e passa
em alçar do vento.

Yeda Prates Bernis – Belo Horizonte - Brasil
De Cantata -Antologia Poética -Edição da Autora, 2004
Imagem:Internet

25 abril 2009

Não sei dizer


Não sei dizer este azul que encaminha os céus...
Sei respirá-lo intenso na vibração densa, descompassada
dos olhos que se entornam nele...
Não sei morrer noutra cor.
Antes esta tonalidade
assim-breve, assim-escorregadia
desintegrando a noite
reinventando o dia.
E eu...
eu não sei escrever este azul
que dá luz á manhã...
Há no silêncio do ar
uma paz autorizada...
um murmúrio lírico
no renascimento
de cada momento.
O pássaro brinca entre uma nota de assobio
e um sopro de vento.
A borboleta adormece — encantada.
Para haver paz
há que caminhar silêncios.
Quero o aconchego da sombra da árvore.
A sua frescura
A sua candura.
Quero o seu caule sólido
A maciez da sua seiva
A dureza da sua raiz.
Quero a paz das suas folhas deitadas,
deleitadas
adormecendo — na paz do tempo.

Ndalu De Almeida ( Ondjaki ) – Angola
Imagem: Ingleses

24 abril 2009

Campos Entardecidos


O poente em pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
remanseou-se ao redor do vilarejo.
Os cincerros recolhem a tristeza
dispersa dessa tarde.
A lua nova
é um fio de voz que vem do céu.
Conforme vai anoitecendo
volta a ser campo o vilarejo.

O poente que não cicatriza
ainda fere a tarde.
As cores trêmulas se acolhem
nas entranhas das coisas.
No aposento vazio
a noite fechará os espelhos.

Jorge Luis Borges - Argentina

23 abril 2009

Repouso


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados
Pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros
Nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem
Das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar
sobre tua face muito amada.

Adalgisa Nery – Brasil

22 abril 2009

Um vento leve, uma espuma


Do beijo fica um sabor,
do sabor uma lembrança,
um vento leve, uma espuma.

Do beijo fica um sereno
olhar, o amor de coisas
minúsculas e humildes,
um pássaro que vai e vem
da nossa boca às palavras.

Do beijo fica, suprema,
a descoberta da morte.
Um vento leve, uma espuma
salgada, à flor dos lábios.

Fernando Assis Pacheco - Portugal

21 abril 2009

A BUSCA


No denso bosque do meu pensamento
Procuro o verso genial, profundo
Que jaz adormecido em esquecimento
Como uma pedra nobre em poço fundo

Anseio aquela idéia preciosa
Que há de tecer poema de cetim
Qual leve e subtil colcha sedosa
Urdida em tear de oiro e marfim

Mas busco-a a sós comigo e silente
Pois sei que se atrapalha receosa
Se encontra pelo caminho sons e gente

E é na calma noite misteriosa
Que ela vem possuir-me amorosa
Despindo-se de versos lentamente

Carmo Vasconcelos - México

20 abril 2009

PROCURA-ME


Não me encontras?
É que não me procuraste!...

Procura-me atrás de tua sombra,
ou na retina de teus olhos claros.

Procura-me entre teus dedos,
ou em tua boca de sândalo.

Eu sou um sopro vivo
à tua vida arraigado.

Procura-me em teu quarto
entre teu sonho alado,
ou pela via rubra
daquele amor distante.

Por cima de teu orgulho,
nas flores azuis dos campos.
Eu estou dentro de ti
como um amor lacrado.

Que não me encontras, tu dizes?
Quando é em tu própria vida
que me perco...
É que não me procuraste!

Carmelina Vizcarrondo - Porto Rico

19 abril 2009

Ilha dourada


A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento...

Rui Knopfli – Moçambique

NINGUÉM MEU AMOR


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos...

Sebastião Alba –Moçambique

18 abril 2009

A uma flor...


Por que, quando a corola se entreabria
tonta de luz, e num deslumbramento,
já pendias cansada e sem alento
nesse ar precoce de melancolia?

Não vês, acaso, que esta sombra fria
que escureceu o azul do firmamento
é uma nuvem somente, e ao vir do vento
surgirá novamente a luz do dia?

Ergue-te pois, feliz e alegre no ar!
Tua viva corola não se entrega
à tristeza que a tenta desfolhar...

Não afrontes o sol ó flor tão linda!
Que esta sombra que passa e que te cega
é sombra apenas.., não é noite ainda!

Manoel Acuña (México)
Este poeta morreu tragicamente apenas com 24 anos de idade.
Alguns de seus poemas obtiveram popularidade, não só no próprio país, como em toda a América.

17 abril 2009

DÁ-ME TUA MÃO


Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão e me amarás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flora, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
no mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança;
Porém teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina, e nada mais.

Gabriela Mistral (Chile)

16 abril 2009

Eu Quis Tocar Tua Mão


Dedilhava as curvas da mão
Na ilusão de um toque a distância
Os olhos fixo no acaso
Rogava sentir-se criança.

Ninguém lhe disse que amava
Sabia esconder-se em palavras
Nenhum dos segredos contava
Com a boca beijava o silêncio.

De alma atirou-se no tempo
Preciso a levava por dentro
E fez-se um poema diurno.

Quisera dizer para este mundo
Aquele tato é um sonho
Do paralelo você!

Fernando Costa

15 abril 2009

São meus estes rios



São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer das fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel Lima (Angola)
Imagem Fernanda Costa

14 abril 2009

ANDANÇAS


Consumi o tempo em andanças...
Percorri caminhos tantos
Que me perdi entre eles...
Hoje, poeira assentada...
Sou o atalho ignorado
O inverso da jornada
Porque construo pontes
Percebo variantes
E sou a própria estrada.

Desdobrando páginas guardadas
Feitas em papel de seda
Decorado em tons amorosos
Revejo imagens sutis
De um tempo que não se cansou...
De sensações que sempre existiram
Porque sonhar... era preciso
E reviver, privilégio constante

Meus passos silenciosos
Perscrutam o renascer
Para não morrer o encontro
Que acorda os sonhos
Enfeitando as manhãs
Onde sou um momento...
Um lindo refazer
Do agora sem amanhã.

Ivone Zouain Zuppo

13 abril 2009

Não deixe o sentimento entardecer...


Não deixe o sentimento entardecer...
Olhe o sol...
Seu reflexo no rio
derrama toda fluidez
do coração humano!
O erro reparado
merece a desculpa.
Culpa, qual?
Pedras rolam ao léu...
Pensamentos exalam
perfumes do amanhã!
O amor não separa,
repara a dor da ausência.
Juntos nos tornaremos fortes.
Ao topo do mundo
seguiremos juntos
sempre lado a lado
feito asa de borboleta!

(Ligia Tomarchio)

12 abril 2009

Na orla do vento


Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.

Eugênio Andrade

11 abril 2009

Brisa leve


Carrego uma brisa leve, que salta do coração
E em amarradas palavras canta com o vento.
É brisa que cresce calada, a murmurar palavras que,
Dançam no horizonte, envoltas pelo tempo, e
Que por teus olhos aguarda parada
Ao cantar um amor tão por ela sentida.
Fosse a brisa um dia vento e pudesse mergulhar
nos teus olhos sem idade, de infinita ternura,
Pudesse essa brisa voar como o vento pelo céu,
E pudesse pousar no teu rosto, num encontrar sentido,
Ao toque desta brisa que pelo teu amor se aviva,
Esse vento de melodias levarias contigo em
Todos os segundos dos teus dias, porque
São brisas assim que vão encontrar teu olhar
E dão asas a estas palavras como um vento
A te chamar...

Sônia Schmorantz

10 abril 2009

Hoje não fiz um poema...


Hoje quero conversar, só conversar....Mesmo sendo feriado precisei trabalhar, mas o dia estava tão lindo que cada oportunidade no jardim, parecia um espetáculo a parte, um espetáculo da vida...
Gosto do céu de outono, do friozinho, da metamorfose das cores que as árvores experimentam nessa época. Gosto das folhas que bailam, folhas que a brisa vai trançando e pairam no ar como experientes bailarinas de árvores imaginárias...
Tarde de outono, sentada num banquinho do jardim, o propósito é saborear esse momento especial da natureza, olhando as nuvens levadas pelo ar, acompanhando o bailado das folhas enquanto a brisa canta seu sopro...
Respiro o outono, me encanta ver os raios de sol que passam por entre os ramos das árvores, e mesmo quando enfraquecido pela perda da luz do verão, o sol ainda aquece confortavelmente, trazendo uma sensação de plenitude e integração à natureza...
Conheço este jardim, serve para os descansos durante o trabalho, mas hoje...hoje foi como se o visse pela primeira vez e, sentada no banco, senti o outono se revelar de modo especial, trouxe a paz de momentos de pura e encantadora magia...como mágica é minha ilha...

Sônia Schmorantz

Um dia de semana


O amor chegou na madrugada de um dia de semana
veio não de todo imprevisto na crista da insônia
e começou por afetar a disciplina respiratória

Depois mudou gestos que a rotina ritmara
e inaugurando silêncios novas escalas de som
hasteou-me no ponto mais alto da levitação

Agora tão perfeitamente quanto posso vê-lo
o meu amor é uma transparência incandescente
ou uma nascente e ninguém sabe como começou...

Soledade Santos

09 abril 2009

Uma canção na alma


Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu
deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
e o fim é belo incerto... depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você...

Fernando Anitelli - Teatro Mágico
(O anjo mais velho)

08 abril 2009

Minha herança


Carrego em mim luares,
Canções secretas de passadas eras,
Poeiras estelares,
Fantasias, desejos e quimeras.
Dunas brancas de areia,
Tecendo labirintos variados
Às carícias do vento que passeia…
Praias banhadas pela lua cheia,
Estrelas acordando…
Cores de pôr-do-sol,
Espargindo no céu rosas de ouro,
Que o olho sorve em colorida ânsia,
Com a mesma avidez e extravagância
Do aventureiro em busca de um tesouro.
Em mim carrego sonhos de criança,
Beijos de mãe em noites assombradas,
Quando o vôo insistente de um inseto,
Batendo contra o teto,
Semelhava o rumor de almas penadas,
E o milagre do toque maternal
Devolvia-me a paz das madrugadas.
Sorrisos, ternuras,
Carícias, procuras,
Penúrias, lamentos,
Fugazes momentos
De gozo e venturas.
Carrego em mim o verde
De florestas pujantes, intocadas,
Onde frondes e ramos se entrelaçam,
Compondo arcadas de estranhas catedrais,
E flores vão-se abrindo de mansinho,
Tecendo, com carinho,
O fruto em seus abrigos vegetais….
O mar azul, o verde monte,
O sol, a estrela, o horizonte,
O vasto céu, a pedra nua,
A água cantante de uma fonte…
O abraço amigo, a voz suave,
O toque leve de uma mão,
O amor brilhando num olhar,
O verso, a rima e a canção,
Eis o que sou.
Eis minha herança,
Meu chão, meu canto e minha dança,
O meu tesouro e meu quinhão.

Maria de Fátima de Oliveira

07 abril 2009

Enquanto eu te beijo


Enquanto eu te beijo,
o seu rumor nos dá a árvore,
que se agita ao sol de ouro,
que o sol lhe dá ao fugir,
fugaz tesouro da árvore que
é a árvore de meu amor.
Não é fulgor, não é ardor,
não é primor o que me dá de ti
com a luz que se afasta; é o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.
A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida que o sol
troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus olhos
que me são paz, fé, sol:
a minha vida!

Juan Ramón Jiménez

06 abril 2009

Começo


Começo a olhar as coisas como quem,
se despedindo, se surpreende com a singularidade
que cada coisa tem de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde,
tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés,
as estrelas daqui a pouco,
que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito,
tudo é ritual.
Começo a amar as coisas com o desprendimento
que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

(Affonso Romano de Sant'anna)

05 abril 2009

A sós


A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...
A sós,
lado a lado, sem alarde,
como dois pássaros num alto ramo,
ao cair da tarde...
A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...
Como eu e tu
quando somos nós
a sós...

J. G. de Araújo Jorge
Imagem: Tomas Wangen

04 abril 2009

Ancorado em mim


Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e um veleiro
Muito mais que o mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentas nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de vôo rasante
Vão trazendo a cada instante
Notícias de outras marés

Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés?

Katia Guerreiro, in 'Nas mãos do Fado'

03 abril 2009

QUISERA


Quisera ficar a teu lado
No grande êxtase pacífico
Do nosso silêncio.
Continuar indefinidamente
O diálogo mudo dos nossos olhos.
Quisera diluir-me em ti como um aroma no vento,
como dois rios que fundem suas águas
No abraço do mesmo leito
E correm para o mesmo destino...
Somos duas árvores solitárias
Que entrelaçam suas ramas:
à mesma brisa estremecem,
florescem, envelhecem e morrem...

(Menotti Del Picchia)

Flor do Asfalto


Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...
Trazes nos olhos a melancolia das longas
perspectivas paralelas, das avenidas outonais,
daquelas ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...
Em tua voz nervosa tumultua essa voz de
folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas, as árvores da rua!
Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas tua silhueta
extravagante e triste...
Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume no olhar,
na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

(Guilherme de Almeida)

02 abril 2009

Uma canção na alma


Queria dedicar-te um canto
Nesta terna e longa viagem
Através da poesia.
Queria dar-te uma flor
Que jamais seque algum dia.
Pois ser feliz é esquecer
A amargura do momento
E só assim a vida é sublime
Bonita, ao mesmo tempo
Como este mar
Que nos separa
Nesta noite amena e calma.
Silêncio!
Que o meu luar
Vai beijar a tua alma.

(Rogério Martins Simões)

OBSERVAÇÃO: estamos retificando o nome do autor, antes Hamilton Afonso, visto haver uma comunicado de plágio, e nada mais justo que os créditos sejam concedidos ao seu verdadeiro autor.

01 abril 2009

AMAR ERA TÃO INFINITAMENTE MELHOR...


Às vezes é preciso recolher-se.
O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta;
a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez
resolve sentar-se à beira dessas águas.
Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir.
É um começo de sabedoria, e dói.
Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento,
além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido.
Amar era tão infinitamente melhor;
curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico.
Não queremos escutar essa lição da vida,
amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador.
Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro
nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta.
Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade,
e ficamos quase sem sonhar.
Quem nos vê nos julga alheados,
quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre,
e a gente mesmo às vezes desconfia de que
nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz.
Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda
há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação,
este silêncio é tanto uma máscara quanto foram,
quem sabe, um dia os seus acenos.

Lya Luft

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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