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31 agosto 2009

Silêncio Perfeito


Na margem do sonho
Consegui encontrar
Um silêncio perfeito
Um instante particular…
O vento levou-me
Num pedaço de mar…
em palavras sentidas
numa música a tocar.
Amplitude perfeita
o refúgio de mim…
Palavras que procuro
e tento encontrar
Palavras com som
Silêncio particular.
Caminhada estreita
Passeio invulgar,
Onde sou beira do rio
Ou onda do mar...
Um barco em terra…
Um navio no mar…
Um relógio parado…
Ou pássaro a voar…
O azul do céu
O imenso luar…
A magia da vida
Uma estrela a brilhar
Violino sem cordas
Ou silêncio invulgar…

mmmfonseca
http://silencioprateado.blogspot.com/

30 agosto 2009

EPITÁFIO


Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr.
Devia ter complicado menos,trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr...

Sérgio Britto


As imagens são deste domingo nas Praias de Mariscal e da Sepultura, em Santa Catarina, lugares maravilhosos que não há como não pretender dividir, desejando que todos tenham uma semana maravilhosa!

29 agosto 2009

Mais ou Menos



A gente pode morar numa casa mais ou menos,
numa rua mais ou menos,
numa cidade mais ou menos,
e até ter um governo mais ou menos.

A gente pode dormir numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos,
ter um transporte mais ou menos,
e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...

TUDO BEM!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum...
é amar mais ou menos,
sonhar mais ou menos,
ser amigo mais ou menos,
namorar mais ou menos,
ter fé mais ou menos,
e acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de
se tornar uma pessoa mais ou menos...

Chico Xavier

28 agosto 2009

Façam



Façam tardes as manhãs
Façam artes os artistas
Faça parte da maçã
A condenação prevista
Façam chuvas os Xamãs
Façam danças as coristas
Façam votos que esta corda
Não sabote o equilibrista

Façam Beatles "For No One"
Faça o povo a justiça
Faça amor o tempo todo
Que amor não desperdiça
Faça votos para alegria
Faça com que todo dia
Seja um dia de domingo

(Osvaldo Montenegro)

Imagem:Mobile Photobucket

VAI



Vai
Vai buscar para ti o que o amor te deu
vai viver o que deixou para trás
transforme em sorriso o que você perdeu
para felicidade plena conquistar

vai, vai, vai...

Vai, vai viver de novo o que o tempo levou
vai se entregar ao que te faz chorar
vai ser lua nova quando o sol se for
vai se lembrar que é bom se apaixonar

vai, vai, vai...

Vai sem pensar nos limites dos teus sonhos
vai...deixa rolar que o nosso amor sabe o rumo

vai, vai, vai....

Paula Fernandes
http://www.paulafernandes.com.br/

26 agosto 2009

Primavera


A primavera chegará,
mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário,
nem possua jardim para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras;
e os habitantes da mata,
essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão,
começam a preparar sua vida
para a primavera que chega.
(Cecília Meireles)

Há uma primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz,
foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó,
cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder...
para me encontrar....
(Florbela Espanca)

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.
(Eugénio de Andrade)

Que importaria a Vida, o Sol, a Primavera,
se eras a Vida, o Sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandado uma palavra: - "espera!"
eu teria ficado até hoje esperando...
(JG de Araújo Jorge)

25 agosto 2009

Eugênio Andrade e Rainer Maria Rilke


Vêm de um céu antigo, um céu
talvez de ficção.
Vejo-as chegar, vejo-as partir.
São aves de passagem, não lhes sei o nome.
Têm como eu pouca realidade.
Seguem a direção do vento,
rumo a sul, chamadas
pela cal ardendo sobre o mar.
É difícil, a nostalgia;
naturalmente mais difícil quando
o tempo fere o nosso olhar
e o priva do que fora mais seu:
a nudez musical da luz primeira.
Mas de que falo eu, se não forem aves?

Eugénio de Andrade



Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos: conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida. Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as horas
Tão sorridente, diferente das irmãs
que se calam eternamente.

Rainer Maria Rilke

24 agosto 2009

Quase Poema


Há um tempo em que as janelas se abrem
atreladas aos próprios sonhos
dando passagem à luz
em transparente monólogo com a palavra.
Palavras em movimento de janela aberta
são possibilidades tangíveis de belezas
memórias palpáveis do momento acontecido
claras memórias de uma tela impressionista.
A visão da janela aberta acontece dentro de silêncios
encharcadas de luz dos ipês reflorescidos
porque há um tempo de janelas abertas
quais asas do pássaro-palavra
alçadas na busca de pequenas felicidades
no incontido vôo azul das acontecências!

Maria Lucia Nascimento Capozzi

23 agosto 2009

Canção do dia de sempre


Hoje ao caminhar pela praia, vi pingouins mortos na areia. Em sua passagem para casa talvez não soubessem que as águas podiam ficar mais quentes e matá-los, mesmo assim fizeram a travessia, arriscando-se...Junto aos seus corpos, corvos e gaivotas faziam estranho bailado, uma festa, um banquete. Felizes pelo que o mar havia lhes trazido.
Fiquei horas a observar, como a natureza se auto-alimenta, ou como se diz, tristeza de uns é alegria de outros. Talvez porque a vida seja assim mesmo, não morremos, nos transformamos, nem que seja em alimento, alegria de outros seres, tudo parte dessa engrenagem perfeita, que é a natureza.
Talvez, por todas as coisas que vi e pensei hoje, escolhi a poesia de Mária Quintana, para começarmos bem nossa semana.



Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana


22 agosto 2009

Quando quero falar de amor


Quando quero falar de amor, às vezes calo:
Há um som no coração, mais alto que a palavra,
Canta pelas ruas, mesmo sozinho,
Tamborilando nas paredes uma música
Que fala do mar, da flor, da saudade.
No peito a música impele estranha
A palavra congelada no papel.
É um canto sem letras,
Que só o coração conhece o tom...
É coração que floresce, amor que aquece
E que a palavra esquece...
Quando quero falar de amor, se calo
É porque o coração canta mais alto a paixão.
No silêncio desta madrugada
Vem ouvir a canção que sai do meu coração
Pois ele canta baixinho, só para ti...

Sônia Schmorantz


Esta árvore entrou no meu corpo, com as suas raízes
de fogo;
devorou-me a alma, com os ramos acesos da
inspiração;
corroeu cada recanto do meu ser, com as
folhas brancas da sua ânsia; e em cada primavera deu
a flor mais inesperada, com a musica das suas pétalas,
e o brilho da imagem que se abre quando o olhar
procura o centro da corola.
É uma árvore que não seca, nem precisa de água;
que não perde folhas e flores, apesar de invernos e outonos;
que partilha o dia com a noite, quando procuro a sua sombra,
e é a sua luz que me enche.
Podia ser uma árvore de ar livre; mas
também cresce nos quartos mais obscuros, nas salas
onde se acumula o fumo e a respiração de quem vive,
nas caves onde a luz não entra.
Cortam-lhe em vão as raízes;
em vão tentam apagar o seu fogo:
nasce do ser o húmus que a alimenta; corre nas veias a seiva
que a percorre. Mas não cresce sozinha;
e é em ti que encontra a sua terra mais fértil, no frio do inverno,
o ar que a envolve, quando a tua ausência a asfixia,
a água que as suas flores bebem, na aridez do estio.
Tu, com os teus dedos de hera, os teus lábios de pólen,
e o doce musgo de palavras com que envolves o seu tronco.
Árvore partilhada, abrigando as aves do amor,
deixo que os seus ramos se estendam sobre nós,
com o seu canto de nuvem, e o seu eco de floresta.

Nuno Júdice

21 agosto 2009

Não amo


Não amo a cor dos olhos.
amo o olhar.
Não amo a brancura dos dentes.
amo o sorriso.
Não amo o contorno dos lábios.
amo o beijo.
Não amo o formato dos braços.
amo o abraço.
Não amo o alongado dos dedos.
amo a caricia.
Não amo as curvas das pernas.
amo o andar.
Não amo o volume dos seios.
amo o aconchego.
E que bom não seja isto uma escultura
seja apenas um poema a toa
Porque não amo um corpo.
amo uma pessoa.

Moacyr Sacramento

20 agosto 2009

Teus versos em mim


Queria teus versos para mim!
Como quem deseja as gotas da chuva na face,
E sente percorrer a suavidade de sua textura...

Queria teus versos, todos assim!
Como quem precisa do perfume das flores,
Da brisa da manhã, que corre pela janela adentro.

Queria teus versos, todos, sim!
Para enfeitar de um colorido em arco-íris
O céu azulado, que protege todo o meu dia.

Queria teus versos, todos, por fim!
Inusitados, porém, de tal forma, amáveis,
Num desejar sem receios absortos.

Queria teus versos todos, enfim!
E os queria assim, de uma forma faceira.
Nas gotas da chuva, corriqueiras,
Na brisa serena, soprando orvalhos.

Texto e imagem:
Eritania Brunoro
Publicado no Recanto das Letras em 22/07/2009
Código do texto: T1714155

Dias há...


Dias há,
em que o teu sorriso
é uma ilha perdida dentro de mim
e o teu nome
o vento que muda as estrelas
para o dorso das andorinhas.
Dias há,
em que procuro os teus olhos
e silenciosamente te digo"meu amor",
como se eles fossem peixes
e as palavras animais estranhos
capazes de turvar a paz
das grandes profundidades.

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas & Outros Poemas

19 agosto 2009

A dança primordial


De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe do mar nesse lugar
em que poderíamos, ainda, morar no espanto,
nascer de novo e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

Maria João Cantinho
In Sílabas de Água, 2005.

18 agosto 2009

A gente se acostuma


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora,
logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E porque à medida que se acostuma,
esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã,
sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode
perder o tempo da viagem.
A comer sanduíches porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir a janela
e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra,
aceita os mortos e que haja números para os mortos.
E aceitando os números,
aceita não acreditar nas negociações de paz.
A gente se acostuma esperar o dia inteiro
e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja
e o que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes,
a abrir revistas e ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A ir ao cinema, a engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata de produtos.
A gente se acostuma à poluição.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar. À luta.
À lenta morte dos rios.
E se acostuma a não ouvir os passarinhos,
a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila
e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés
e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito
porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida,
que aos poucos se gasta e, que,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colassanti

17 agosto 2009

Coração do Dia


Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugênio de Andrade,
In Coração do Dia
Imagem 1: http://www.videojug.com
Imagem 2: Manguezal no Bairro Itacorubi, Florianópolis

16 agosto 2009

Metal Rosicler 16


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina
Tece-a com desenhos
de amigos que falam
de ruas que voam,
de amor que se inclina.
de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme,deplora
com palavras mudas
e não raciocina...
Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina
dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa
e a noite combina.

Cecília Meireles
in Poesias Completas Metal Rosicler (1960)

15 agosto 2009

Ninguém Sabe


Meu rio é brando e alegre ao deslizar
E quando enxurra é violento como o mar!
Em tempo benigno, ele é um encanto,
Mas, quando encapela, é meu quebranto...

É um rio que desliza nas minhas veias
Do centro da terra vindo, pulsando cheias,
E só se corresponde com uma estrela
Ficando extasiado só em vê-la.

Entre ele e essa estrela flui a alquimia
Há beijos trocados que ninguém entende
Parece um mundo nato da magia;

Ninguém sabe que esse rio nasce em mim
Ninguém sabe por onde ele anda e se estende
Vive dum sonho lindo... e nunca terá fim.

Daniel Cristal
http://poetadanielcristal.blogspot.com/

14 agosto 2009

Somente Poeta


Não peça que eu voe,
sou um poeta da lida,
minhas letras são grades,
minha janela é a vida.
Sinto os sonhos antes de dormir,
como ondas de vento frio,
antes vem o amor,
como água que corre o rio.
Volto o corpo ao sol,
como se embriagasse de manhãs,
bebo cálices de luas,
uma ou duas, como se fossem de maçãs.
Amarrem minhas mãos,
escrevo com olhos que amo,
desenho o nu que respiro,
o nome que na noite eu chamo.

Caio Lucas

Imagens> 1 Ingleses, 2 Lagoa da Conceição

13 agosto 2009

Lindolf Bell (In Incorporação)


Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto e viver-te
como a sede vive a fonte.
Atenta ao ruído que anoitece (e adentra)
do catavento sobre nenhuma presença
para dar-nos ternura,
nós que tanta ternura presumimos dar.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como raiz e tronco
em todas as noites de insuficiência.
Daremos adornos e crepúsculos
aos rostos que nos espiam.
E para tornar-nos serenos
frente ao encontro
esmagaremos corações com nossos corações.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como pedra em pedra
ser a sentinela do tempo em sua redoma,
olhar através da redoma os peixes
que plantam luas nas alpondras
e suprem-nos de tanta glória
numa ternura daninha de querer.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
prestes a pousar sobre o breve corpo.

12 agosto 2009

Mais nada...


Nestes dias chuvosos, quando a tua
lembrança vem bater-me na vidraça,
recuso-me de todo a ver quem passa
e procuro nem sequer olhar a rua.

E pela noite dentro, quando a lua
é um pássaro triste que esvoaça
sobre a última árvore da praça,
onde um fantasma sempre se insinua,
reinvento-te e, à luz da madrugada,
concluo que, além de ti, não há mais nada.

Torquato da Luz
Imagem 1:http://outdoors.webshots.com/photo/1339449118030173469cYYnqp
Imagem 2: Ribeirão da Ilha

A viagem de shihiro


Em algum lugar, uma voz chama,
do fundo do meu coração
Continue sonhando seus sonhos,
nunca deixe eles partirem
Por que falar das suas tristezas
ou sobre as angústias da vida?
Deixe teus lábios cantarem
uma linda canção para você
Não esqueceremos a voz sussurrante
em cada lembrança ela ficará sempre
para guiar você
Quando um espelho se quebra,
estilhaços se espalham pelo chão
lampejos de uma vida nova,
refletem-se por toda parte
Janela de um recomeço,
silêncio, nova luz da aurora
Deixe que meu corpo silencioso e vazio
seja preenchido e nasça outra vez,
Não precisa procurar lá fora,
nem navegar através dos mares
Porque brilha aqui dentro de mim,
está bem aqui dentro de mim
Encontrei uma luz, está sempre comigo.

A viagem de shihiro
http://www.pensador.info/autor/a_viagem_de_shihiro/

11 agosto 2009

Cecília Meireles


Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Gosto da minha palavra pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga é tudo que tenho entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música, meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa, menos a felicidade.

10 agosto 2009

Sobre a Invisibilidade


Algumas pessoas se tornam inesquecíveis
ao mesmo tempo em que se tornam invisíveis...
Existem amores duradouros que se mantêm
graças a outras “concretudes”.
companheirismo...afinidade...fidelidade...
E existem amores que existem na
sua condição de impermanência...
Como as estações que aparecem e se desmancham,
a cada ano...deixando a imagem de um pôr-do-sol,
folhas que caem em verso ou reverso,
a chuva estupenda que lava uma tarde única.
Ficar com estes amores é
como tentar pegar as nuvens...
Certos desejos só cabem na memória,
uma instância que até parece a realidade,
mas não é a realidade...
Nela não há mais tempo nem espaço...
apenas a beleza imaterial.
A beleza sem "corpo".
De quantas desistências é feito o sonho?

Célia Musilli

09 agosto 2009

Sonhos


É uma quietação que nasce da tarde,
Com as imagens que arrumo na prateleira do outono,
de onde as irei tirar nessa primavera que faz parte
do teu sonho.
De novo, estabeleço uma relação
entre o rosto que se afasta do mundo e
o azul de um céu antigo, que serve
para guardar a linha do horizonte nas manhãs
em que a névoa a esconde.
Ambos me afastam
da penumbra do poema, e quando derramo
esse azul sobre o teu rosto é como se a tinta
do céu te restituísse a cor da vida,
e o riso que ilumina a noite.
Regresso então ao princípio,
que és tu, para roubar à tarde a sua quietação,
e desenhar com ela o teu perfil sobre o sonho
em que a primavera floresce.

Nuno Júdice

08 agosto 2009

Quem inventou a partida?


Quem inventou a partida?
De um filho, de um amigo,
de um parente, da vida ...
Que oca figura é esta
que nada lhe toca e lhe resta,
para inventá-la tão triste?
E tudo nela é sofrido:
o abraço, o olhar,
o beijo dividido...
Tudo nela tem uma ponta de dor:
As palavras, um afago ,
uma lágrima!
E ainda nos deixa
uma saudade tamanha,
Pesada de carregar!
Quem inventou a partida
Não sabia amar!
Não teve infância,
nem se apaixonou!
Não teve amigos,
nunca chorou ...
Não viu a primavera,
a neve das chaminés!
A chuva da janela,
os rios e igarapés.
Quem inventou a partida
Deveria estar de mal com a vida!
Não conseguiu compreendê-la.
Não viu o neto,
a noite e seu teto,
os quinze anos de um filho ...
Quem inventou a partida?
Seria a propria dor nascida?
Perdeu os natais,
crepúsculos e madrigais ...
Perdeu o pulsar da vida!
Quem inventou a partida
a fez sem autorização,
do amor guardado em nós!
Sem data marcada, sem dia certo...
fez a sós!
Sem trato, ou distrato,
sem contrato de gaveta.
Mas a fez, metido a besta!
E a nós, o que resta?
Dos dias, espreitar à fresta
esperando o momento que
chegará em nossa vida,
no mais completo silêncio.

(José Geraldo Martinez)
Imagem: http://picasaweb.google.com/lh/photo/ZerhTt_6E6c-K7M4DEnNPQ

Neste Dia dos Pais

Entre a dor e a mágoa da perda,
entre as lembranças das alegrias vividas,
tem esta saudade que aperta minha alma,
que recordando se aflige,
mas que espera
transformar estas palavras em beijos
que te alcancem no mar que hoje habitas,
porque agora, nesse momento, sou só saudades....


Imagem do mês de maio de 2008

07 agosto 2009

Como As Espigas


Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-Ihes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.

Albano Martins
in Escrito a Vermelho
Imagem 1: http://www.paulsgrains.com/sunset5-31b.jpg
Imagem 2: Lagoa da Conceição

06 agosto 2009

Não é uma coisa só...



Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.

António Osório
Imagem 1: Barco, por Tom Schmorantz
Imagem 2: Costão do Santinho, Florianópolis

05 agosto 2009

Recado


Quando quiseres me amar
não escolhas tempo nem lugar.
Quando chegares, diremos baixinho
o soneto de todos os amantes.
Faremos de nossos dedos
demiurgos recriando a noite,
em régua e compasso transformaremos nossas mãos.
Inventaremos uma geometria do amor:
procuraremos a linha reta de nossos olhares,
apararemos as arestas de nossos corpos,
em quinas e ângulos uniremos nossas bocas,
e num ponto qualquer fixaremos o azulado
das manhãs.
Quando quiseres me amar,
não escolhas tempo nem lugar.
Deixarei a porta aberta, a casa limpa,
uma saudade te esperando em cada canto.

Carlos Alberto Jales

Imagem 1:http://elspeththompson.wordpress.com/2008/03/06/hello-world/

04 agosto 2009

ANIVERSÁRIO


O tempo é marcado por datas, meses, anos que passam muito depressa.
Em 05 de agosto de 1954 aportei neste planeta, os jornais do dia anunciavam o atentado a Carlos Lacerda, começando a mover a engrenagem que levaria ao fim do governo e suicídio de Getúlio Vargas. Nasci exatamente no início dos vinte dias que mudaram a história do Brasil, no mês e ano mais conturbado da história republicana brasileira.
Em agosto de 1954 Ernest Hemingway recebe o Prêmio Nobel de literatura.
No cinema mundial estreava A mulher de Satã na Áustria, Janela Indiscreta nos Estados Unidos e os Sete Samurais no Festival de Veneza, Itália.
Em 1954 também começava a carreira de Elvis Presley com as músicas Take e Blue Moon of Kentucky. No Brasil foi lançada a canção Poema dos olhos da amada de Vinícius de Moraes e Paulo Soledade.
É estranho ver o tempo passar, o passado se torna um abismo no coração da gente, desta vida vivida com a consciência da finitude, plena de histórias, momentos, pessoas, venturas e desventuras.
Não gosto, nem nunca gostei de falar em meu aniversário.
Mas fazer 55 anos me parece diferente: dia 5...55. Acho que é esta combinação numérica! Então para comemorar hoje leremos a Poesia que aniversaria comigo,
Poema dos Olhos da Amada:

Ó minha amada que olhos os teus
São cais noturnos, cheios de adeus
São docas mansas trilhando luzes
Que brilham longe longe dos breus...
Ó minha amada que olhos os teus
Quanto mistério nos olhos teus
Quantos saveiros, quantos navios
Quantos naufrágios nos olhos teus...
Ó minha amada que olhos os teus
Se Deus houvera, fizera-os Deus
Pois não os fizera, a quem não soubera
Que há muitas eras nos olhos teus.
Ah, minha amada de olhos ateus
Cria a esperança nos olhos meus
De verem um dia o olhar mendigo
Da poesia nos olhos teus.

(Vinicius de Morais)

03 agosto 2009

A alma é uma coleção...



A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos,
os seus rostos envolvidos pela sombra.
Sua beleza é triste e nostálgica porque,
sendo moradores da alma, sonhos,
eles não existem do lado de fora.
Vez por outra, entretanto,
defrontamo-nos com um rosto (ou será apenas uma voz,
uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...)
sem razões, faz a bela cena acordar.
E somos possuídos pela certeza de que este rosto
que os olhos contemplam é o mesmo que,
no quadro, está escondido pela sombra.
O corpo estremece. Está apaixonado.
Acontece, entretanto, que não existe coisa alguma
que seja do tamanho do nosso amor.
A nossa fome de beleza é grande demais.
Cedo ou tarde descobrirá que o rosto não é aquele.
E a bela cena retornará à sua condição de sonho
impossível da alma. E só restará a ela alimentar-se
da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...

Rubem Alves

Todos os dias



Todos os dias nasce uma flor no meu peito
e brota em alegria e germina.
Seria girassol, se não fosse sol;
mas também seria essa, se não fosse aquela.
E seria lua,se noite fosse,
e seria saudade,se saudade fosse doce.
E seria mulher,se não fosse menina...
E seria prisão, senão liberdade
e seria vontade, se não fosse tanto
e seria mais do que puro encanto
seria amor além de densidade.

Mariana Gouveia

Imagem 1: Lucas Landau, http://www.flickr.com/photos/paradise/98082649/
Imagem 2: Lagoa da Conceição

02 agosto 2009

Rapsódia Matinal


A menina de cinco anos
balança sua alegria
na corda atada
nos galhos da mangueira.
Ela não suspeita
de outra corda:
a mulher de cinqüenta
que desafia o abismo.
A menina está feliz
com a inocência
de seu instante;
no entanto desconfia
desse abismo de plumas
de temível doçura...
Então fia e desfia
a seda do rio do tempo
que retorna sempre...
A mulher de cinqüenta
atravessa o espelho
e dialoga com o caos.
Ela quer provar o saber
e o sabor de todos
os homens e mulheres,
mas só consegue beber
o olho azul do dia
na taça que transborda
esse sol de inverno...

Maria Nazaré C. Laroca
direitos reservados do autor

Próximo do aniversário - 55 anos - este poema hoje me tocou profundamente, e é com vocês que divido!

Entre o que vejo e o que digo



Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.
desliza entre o sim e o não:
diz o que calo,
cala o que digo,
sonha o que esqueço.
Não é um dizer: é um fazer.
É um fazer que é um dizer.
A poesia se diz e se ouve: é real.
E, apenas digo é real, se dissipa.
Será assim mais real?

(Octávio Paz – México)


Imagens: Tom Schmorantz

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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