31 Agosto 2009

Silêncio Perfeito


Na margem do sonho
Consegui encontrar
Um silêncio perfeito
Um instante particular…
O vento levou-me
Num pedaço de mar…
em palavras sentidas
numa música a tocar.
Amplitude perfeita
o refúgio de mim…
Palavras que procuro
e tento encontrar
Palavras com som
Silêncio particular.
Caminhada estreita
Passeio invulgar,
Onde sou beira do rio
Ou onda do mar...
Um barco em terra…
Um navio no mar…
Um relógio parado…
Ou pássaro a voar…
O azul do céu
O imenso luar…
A magia da vida
Uma estrela a brilhar
Violino sem cordas
Ou silêncio invulgar…

mmmfonseca
http://silencioprateado.blogspot.com/

30 Agosto 2009

EPITÁFIO


Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr.
Devia ter complicado menos,trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr...

Sérgio Britto


As imagens são deste domingo nas Praias de Mariscal e da Sepultura, em Santa Catarina, lugares maravilhosos que não há como não pretender dividir, desejando que todos tenham uma semana maravilhosa!

29 Agosto 2009

Mais ou Menos



A gente pode morar numa casa mais ou menos,
numa rua mais ou menos,
numa cidade mais ou menos,
e até ter um governo mais ou menos.

A gente pode dormir numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos,
ter um transporte mais ou menos,
e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...

TUDO BEM!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum...
é amar mais ou menos,
sonhar mais ou menos,
ser amigo mais ou menos,
namorar mais ou menos,
ter fé mais ou menos,
e acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de
se tornar uma pessoa mais ou menos...

Chico Xavier

28 Agosto 2009

Façam



Façam tardes as manhãs
Façam artes os artistas
Faça parte da maçã
A condenação prevista
Façam chuvas os Xamãs
Façam danças as coristas
Façam votos que esta corda
Não sabote o equilibrista

Façam Beatles "For No One"
Faça o povo a justiça
Faça amor o tempo todo
Que amor não desperdiça
Faça votos para alegria
Faça com que todo dia
Seja um dia de domingo

(Osvaldo Montenegro)

Imagem:Mobile Photobucket

VAI



Vai
Vai buscar para ti o que o amor te deu
vai viver o que deixou para trás
transforme em sorriso o que você perdeu
para felicidade plena conquistar

vai, vai, vai...

Vai, vai viver de novo o que o tempo levou
vai se entregar ao que te faz chorar
vai ser lua nova quando o sol se for
vai se lembrar que é bom se apaixonar

vai, vai, vai...

Vai sem pensar nos limites dos teus sonhos
vai...deixa rolar que o nosso amor sabe o rumo

vai, vai, vai....

Paula Fernandes
http://www.paulafernandes.com.br/

26 Agosto 2009

Primavera


A primavera chegará,
mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário,
nem possua jardim para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras;
e os habitantes da mata,
essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão,
começam a preparar sua vida
para a primavera que chega.
(Cecília Meireles)

Há uma primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz,
foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó,
cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder...
para me encontrar....
(Florbela Espanca)

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.
(Eugénio de Andrade)

Que importaria a Vida, o Sol, a Primavera,
se eras a Vida, o Sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandado uma palavra: - "espera!"
eu teria ficado até hoje esperando...
(JG de Araújo Jorge)

25 Agosto 2009

Eugênio Andrade e Rainer Maria Rilke


Vêm de um céu antigo, um céu
talvez de ficção.
Vejo-as chegar, vejo-as partir.
São aves de passagem, não lhes sei o nome.
Têm como eu pouca realidade.
Seguem a direção do vento,
rumo a sul, chamadas
pela cal ardendo sobre o mar.
É difícil, a nostalgia;
naturalmente mais difícil quando
o tempo fere o nosso olhar
e o priva do que fora mais seu:
a nudez musical da luz primeira.
Mas de que falo eu, se não forem aves?

Eugénio de Andrade



Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos: conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida. Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as horas
Tão sorridente, diferente das irmãs
que se calam eternamente.

Rainer Maria Rilke

24 Agosto 2009

Quase Poema


Há um tempo em que as janelas se abrem
atreladas aos próprios sonhos
dando passagem à luz
em transparente monólogo com a palavra.
Palavras em movimento de janela aberta
são possibilidades tangíveis de belezas
memórias palpáveis do momento acontecido
claras memórias de uma tela impressionista.
A visão da janela aberta acontece dentro de silêncios
encharcadas de luz dos ipês reflorescidos
porque há um tempo de janelas abertas
quais asas do pássaro-palavra
alçadas na busca de pequenas felicidades
no incontido vôo azul das acontecências!

Maria Lucia Nascimento Capozzi

23 Agosto 2009

Canção do dia de sempre


Hoje ao caminhar pela praia, vi pingouins mortos na areia. Em sua passagem para casa talvez não soubessem que as águas podiam ficar mais quentes e matá-los, mesmo assim fizeram a travessia, arriscando-se...Junto aos seus corpos, corvos e gaivotas faziam estranho bailado, uma festa, um banquete. Felizes pelo que o mar havia lhes trazido.
Fiquei horas a observar, como a natureza se auto-alimenta, ou como se diz, tristeza de uns é alegria de outros. Talvez porque a vida seja assim mesmo, não morremos, nos transformamos, nem que seja em alimento, alegria de outros seres, tudo parte dessa engrenagem perfeita, que é a natureza.
Talvez, por todas as coisas que vi e pensei hoje, escolhi a poesia de Mária Quintana, para começarmos bem nossa semana.



Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana


22 Agosto 2009

Quando quero falar de amor


Quando quero falar de amor, às vezes calo:
Há um som no coração, mais alto que a palavra,
Canta pelas ruas, mesmo sozinho,
Tamborilando nas paredes uma música
Que fala do mar, da flor, da saudade.
No peito a música impele estranha
A palavra congelada no papel.
É um canto sem letras,
Que só o coração conhece o tom...
É coração que floresce, amor que aquece
E que a palavra esquece...
Quando quero falar de amor, se calo
É porque o coração canta mais alto a paixão.
No silêncio desta madrugada
Vem ouvir a canção que sai do meu coração
Pois ele canta baixinho, só para ti...

Sônia Schmorantz


Esta árvore entrou no meu corpo, com as suas raízes
de fogo;
devorou-me a alma, com os ramos acesos da
inspiração;
corroeu cada recanto do meu ser, com as
folhas brancas da sua ânsia; e em cada primavera deu
a flor mais inesperada, com a musica das suas pétalas,
e o brilho da imagem que se abre quando o olhar
procura o centro da corola.
É uma árvore que não seca, nem precisa de água;
que não perde folhas e flores, apesar de invernos e outonos;
que partilha o dia com a noite, quando procuro a sua sombra,
e é a sua luz que me enche.
Podia ser uma árvore de ar livre; mas
também cresce nos quartos mais obscuros, nas salas
onde se acumula o fumo e a respiração de quem vive,
nas caves onde a luz não entra.
Cortam-lhe em vão as raízes;
em vão tentam apagar o seu fogo:
nasce do ser o húmus que a alimenta; corre nas veias a seiva
que a percorre. Mas não cresce sozinha;
e é em ti que encontra a sua terra mais fértil, no frio do inverno,
o ar que a envolve, quando a tua ausência a asfixia,
a água que as suas flores bebem, na aridez do estio.
Tu, com os teus dedos de hera, os teus lábios de pólen,
e o doce musgo de palavras com que envolves o seu tronco.
Árvore partilhada, abrigando as aves do amor,
deixo que os seus ramos se estendam sobre nós,
com o seu canto de nuvem, e o seu eco de floresta.

Nuno Júdice

21 Agosto 2009

Não amo


Não amo a cor dos olhos.
amo o olhar.
Não amo a brancura dos dentes.
amo o sorriso.
Não amo o contorno dos lábios.
amo o beijo.
Não amo o formato dos braços.
amo o abraço.
Não amo o alongado dos dedos.
amo a caricia.
Não amo as curvas das pernas.
amo o andar.
Não amo o volume dos seios.
amo o aconchego.
E que bom não seja isto uma escultura
seja apenas um poema a toa
Porque não amo um corpo.
amo uma pessoa.

Moacyr Sacramento

20 Agosto 2009

Teus versos em mim


Queria teus versos para mim!
Como quem deseja as gotas da chuva na face,
E sente percorrer a suavidade de sua textura...

Queria teus versos, todos assim!
Como quem precisa do perfume das flores,
Da brisa da manhã, que corre pela janela adentro.

Queria teus versos, todos, sim!
Para enfeitar de um colorido em arco-íris
O céu azulado, que protege todo o meu dia.

Queria teus versos, todos, por fim!
Inusitados, porém, de tal forma, amáveis,
Num desejar sem receios absortos.

Queria teus versos todos, enfim!
E os queria assim, de uma forma faceira.
Nas gotas da chuva, corriqueiras,
Na brisa serena, soprando orvalhos.

Texto e imagem:
Eritania Brunoro
Publicado no Recanto das Letras em 22/07/2009
Código do texto: T1714155

Dias há...


Dias há,
em que o teu sorriso
é uma ilha perdida dentro de mim
e o teu nome
o vento que muda as estrelas
para o dorso das andorinhas.
Dias há,
em que procuro os teus olhos
e silenciosamente te digo"meu amor",
como se eles fossem peixes
e as palavras animais estranhos
capazes de turvar a paz
das grandes profundidades.

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas & Outros Poemas

19 Agosto 2009

A dança primordial


De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe do mar nesse lugar
em que poderíamos, ainda, morar no espanto,
nascer de novo e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

Maria João Cantinho
In Sílabas de Água, 2005.

18 Agosto 2009

A gente se acostuma


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora,
logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E porque à medida que se acostuma,
esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã,
sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode
perder o tempo da viagem.
A comer sanduíches porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir a janela
e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra,
aceita os mortos e que haja números para os mortos.
E aceitando os números,
aceita não acreditar nas negociações de paz.
A gente se acostuma esperar o dia inteiro
e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja
e o que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes,
a abrir revistas e ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A ir ao cinema, a engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata de produtos.
A gente se acostuma à poluição.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar. À luta.
À lenta morte dos rios.
E se acostuma a não ouvir os passarinhos,
a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila
e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés
e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito
porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida,
que aos poucos se gasta e, que,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colassanti

17 Agosto 2009

Coração do Dia


Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugênio de Andrade,
In Coração do Dia
Imagem 1: http://www.videojug.com
Imagem 2: Manguezal no Bairro Itacorubi, Florianópolis

16 Agosto 2009

Metal Rosicler 16


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina
Tece-a com desenhos
de amigos que falam
de ruas que voam,
de amor que se inclina.
de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme,deplora
com palavras mudas
e não raciocina...
Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina
dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa
e a noite combina.

Cecília Meireles
in Poesias Completas Metal Rosicler (1960)

15 Agosto 2009

Ninguém Sabe


Meu rio é brando e alegre ao deslizar
E quando enxurra é violento como o mar!
Em tempo benigno, ele é um encanto,
Mas, quando encapela, é meu quebranto...

É um rio que desliza nas minhas veias
Do centro da terra vindo, pulsando cheias,
E só se corresponde com uma estrela
Ficando extasiado só em vê-la.

Entre ele e essa estrela flui a alquimia
Há beijos trocados que ninguém entende
Parece um mundo nato da magia;

Ninguém sabe que esse rio nasce em mim
Ninguém sabe por onde ele anda e se estende
Vive dum sonho lindo... e nunca terá fim.

Daniel Cristal
http://poetadanielcristal.blogspot.com/

14 Agosto 2009

Somente Poeta


Não peça que eu voe,
sou um poeta da lida,
minhas letras são grades,
minha janela é a vida.
Sinto os sonhos antes de dormir,
como ondas de vento frio,
antes vem o amor,
como água que corre o rio.
Volto o corpo ao sol,
como se embriagasse de manhãs,
bebo cálices de luas,
uma ou duas, como se fossem de maçãs.
Amarrem minhas mãos,
escrevo com olhos que amo,
desenho o nu que respiro,
o nome que na noite eu chamo.

Caio Lucas

Imagens> 1 Ingleses, 2 Lagoa da Conceição

13 Agosto 2009

Lindolf Bell (In Incorporação)


Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto e viver-te
como a sede vive a fonte.
Atenta ao ruído que anoitece (e adentra)
do catavento sobre nenhuma presença
para dar-nos ternura,
nós que tanta ternura presumimos dar.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como raiz e tronco
em todas as noites de insuficiência.
Daremos adornos e crepúsculos
aos rostos que nos espiam.
E para tornar-nos serenos
frente ao encontro
esmagaremos corações com nossos corações.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
Por isso quero estar junto
como pedra em pedra
ser a sentinela do tempo em sua redoma,
olhar através da redoma os peixes
que plantam luas nas alpondras
e suprem-nos de tanta glória
numa ternura daninha de querer.

Sempre há duas solidões que se aguardam.
prestes a pousar sobre o breve corpo.

12 Agosto 2009

Mais nada...


Nestes dias chuvosos, quando a tua
lembrança vem bater-me na vidraça,
recuso-me de todo a ver quem passa
e procuro nem sequer olhar a rua.

E pela noite dentro, quando a lua
é um pássaro triste que esvoaça
sobre a última árvore da praça,
onde um fantasma sempre se insinua,
reinvento-te e, à luz da madrugada,
concluo que, além de ti, não há mais nada.

Torquato da Luz
Imagem 1:http://outdoors.webshots.com/photo/1339449118030173469cYYnqp
Imagem 2: Ribeirão da Ilha

A viagem de shihiro


Em algum lugar, uma voz chama,
do fundo do meu coração
Continue sonhando seus sonhos,
nunca deixe eles partirem
Por que falar das suas tristezas
ou sobre as angústias da vida?
Deixe teus lábios cantarem
uma linda canção para você
Não esqueceremos a voz sussurrante
em cada lembrança ela ficará sempre
para guiar você
Quando um espelho se quebra,
estilhaços se espalham pelo chão
lampejos de uma vida nova,
refletem-se por toda parte
Janela de um recomeço,
silêncio, nova luz da aurora
Deixe que meu corpo silencioso e vazio
seja preenchido e nasça outra vez,
Não precisa procurar lá fora,
nem navegar através dos mares
Porque brilha aqui dentro de mim,
está bem aqui dentro de mim
Encontrei uma luz, está sempre comigo.

A viagem de shihiro
http://www.pensador.info/autor/a_viagem_de_shihiro/