.

.

30 setembro 2009

Risco de Amor


Eu quero uma massagem repentina
Um beijo acordado
Sem cor de pecado nem faces de dor
Quero pinceladas cor de rosa
Numa aurora acompanhada
Um cheiro amordaçado
Numa noite nem tão suja, nem tão tua
Nem tão minha, nem tão crua

Quero teu colo, assim, de coca-cola
Importado ao meu gosto, nem tão frouxo
Nem tão seco
Quero teus olhos, contemplando
Meu corpo nu cheio de roupas
Nem tão cegos, nem tão sãos

Quero uma noite apenas, um dia talvez
Mas quero teu sono e teu rosto franzino
Quero cantigas e uma lágrima rolando
Teu toque de saudade e um poema qualquer

E se não espero outras coisas, é porque todo ano
Te escrevo e não respondes outras vezes
Namoro-te, é verdade, num desejo inconstante
Sem corpo, sem rumo, errante
Querendo encontrar-te num dia qualquer
Nem tão amanhã, nem tão talvez.

Daniel Viana da Cruz




Trilha para Lagoinha Leste

29 setembro 2009

Uma experiência única



Lembra que bonito a gente era
Lembra como tudo começou
Vê se não desiste
Vê se a gente insiste
Não torne tudo um sonho que passou.

Cada dia o mundo nos leva mais um
E fica menos um, menos um violão
E a nossa canção não é a mesma
Como ela era então.

Faça aquela cara antiga
tão cheia de vida
sem ressentimento
Corra livremente e grite
uma cantiga ao vento.

Diga que nada mudou
que o tempo não levou
Que apesar de tudo
A nossa canção ficou.

Nizan Guanaes




Imagens: Praia Mole e Barra da Lagoa

28 setembro 2009

Pintei para ti uma rosa



Pintei para ti uma rosa
uma rosa pequenina
daquelas brancas
tão puras que são gritos
de almas solitárias
que vivem correndo
o seu fado
pintei para ti uma rosa
uma rosa branca, suave
de mil cores imaginadas
tiradas da paleta mágica
que existe na minha alma
pintei o azul do mar
o amarelo do sol
o rosa dos sonhos felizes
o branco do véu da paz
o negro do lamento da noite
o verde das esperanças
e tantas, tantas cores
cores de paz e de guerra
cores de doçura e de força
cores , todas elas bonitas
pequenos pedaços de alma
que deixei para ti
com sorrisos que não dei
com sonhos que não contei
com o carinho e a ternura
de um doce entardecer
eu pintei uma rosa
tão pequenina e formosa
igual a sonho, a mulher
para ti pintei a rosa
que fica testemunha calada
de uma paleta de cores
da alma de quem a pintou
de um poeta sonhador
que vive pintando a vida
com as cores que inventou...

Gonçalo de Assis

Imagem 1: Praia dos Ingleses


27 setembro 2009

Boa noite, meu amor!



Boa noite, meu amor!
O mar acalma na brisa
essa é a hora de voltar...
A brisa acalmar o vento
os sonhos o pensamento
que não cessa de gritar
nessa noite numerosa
entre as ondas sinuosas
dos caminhos do luar...

Boa noite, meu amor!
Sem os muros dos rochedos
sem nenhum setembro negro
sem mistérios nem segredos
sem os medos de voltar...

Boa noite, meu amor!
É destino o amanhecer
para a noite descansar...
Bom sonhar enquanto é tempo
bom de morrer ao relento
bom de renascer no mar...

A. Estebanez


Mar de inverno na Praia dos Ingleses



AMO



Amo andar pelas tardes sem som,
brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em vôo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado,
tudo paralisado na oração calma…
Amo andar nessas tardes…

Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agitando
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma…

E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi…
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras…
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva…
E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar…

Vinicius de Moraes




Imagens: Lagoa da Conceição e Costão do Santinho

26 setembro 2009

Aula de Vôo



O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.
Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava Trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber
levanta certeza na forma de muro,
orgulha-se de seu casulo.
Até que maduro
explode em vôos
rindo do tempo que imagina saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.
Mas o vôo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.
O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
E de suas certezas.
É meta de forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa
a nos mostrar que para o vôo
é preciso tanto o casulo
como a asa.

Mauro Lasi





Imagens: Costão do Santinho e Lagoa da Conceição

25 setembro 2009

Poemas esparsos



Vou andar descalço pelas estrelas
Colher flores no universo
Vou levar meus versos pra qualquer lugar
Que seja longe da tua constelação.
Vou me afastar aos poucos numa chuva de corpos celestes
Viajar sem destino
Brilhar de sol e de lua
E como estrela cadente cair em você.
Vou puxar os cometas pelas caudas
E te dar os anéis de saturno
Me afogar no mar da tranquilidade
E me ocultar no lado escuro da Lua.
Vou me perder de você
Pra nos encontrarmos
Numa dobra do tempo qualquer
Em que sejamos um só
Infinitamente pra sempre.

Vander



Os seres amados são sombras que se apagam,
são sombras de um jardim, no entardecer.

Nós tínhamos no olhar o encantamento
dos lúcidos recortes,
dos arabescos harmoniosos
desenhados no chão.

Mas um por um diluíram-se os desenhos
numa sombra maior ...
Os seres amados são sombras,
são sombras de um jardim, no entardecer ...

Tasso da Silveira


Imagens: Costão do Santinho e Lagoa da Conceição

24 setembro 2009

Um dia



Um dia, lendo este poema,
lembrar-te-ás:
o amor falou através dele.
Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste;
reconhecerás nos seus versos o corpo que encheu
a tua vida;
tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura.
E o tempo
entrará por ti como um rio que alaga os campos
do inverno.
Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada.
Algures, porém,
uma árvore antiga sobressai;
e os seus ramos
verdes dar-te-ão a esperança de uma nova
primavera, em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe
com os seus dedos
de música.

Nuno Júdice



23 setembro 2009

Epitalâmio



Apenas as gotas de chuva: compassadas e mansas.
A folhagem, lá fora, adormeceu feliz.
Despertando na relva, cantam grilos baixinho.
A confidência da chuva, a confidência dos grilos,
Tudo que vem da noite é surdina e doçura.

Certeza não direi, mas direi: esperança.
Deves pensar em mim neste momento mesmo.
Teu pensamento é o meu, tua esperança é a minha.
Através do espaço,não é verdade? As nossas mãos
estão apertadas, em segredo.
Sinto que o nosso amor era grande como a noite
E que o melhor de nós habita na distância
Que nos espera.

Ribeiro Couto

Imagem 1: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rain_drops_2_bg_20090606.jpg



Cantinho escondido



Dentro de cada pessoa
tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
um lugar para o coração pousar,
um endereço que freqüente sem morar,
ali na esquina do sonho com a razão,
no centro do peito, no largo da ilusão.

Coração não tem barreira não,
desce a ladeira, perde o freio devagar,
eu quero ver cachoeira desabar,
montanha roleta russa felicidade,
posso me perder pela cidade,
fazer o circo pegar fogo de verdade,
mas tenho meu canto cativo para voltar.

Eu posso até mudar
mas onde quer que eu vá
o meu cantinho há de ir
dentro...

Arnaldo Antunes
Publicado por Meire Jorge
http://teiadeilusao.blogspot.com/

Imagem 1: Corações gigantes da natureza, este é no Lago Gutierrez, região da Patagônia, Argentina - http://smoont.com/mother-nature-is-too-lovelyand-she-created-this-gigantic-hearts/

22 setembro 2009

Tu és...


Tu és todos os livros, todos os mares,
Todos os rios, todos os lugares.
Todos os dias, todo o pensamento,
Todas as horas o teu corpo no vento.
Tu és todos os sábados, todas as manhãs,
Toda a palavra ancorada nas mãos.
Tu és todos os lábios, todas as certezas,
Todos os beijos, desejos, princesa.

Como uma ilha

Prende-me em ti, agarra-me ao chão,
Como barcos em terra, como fogo na mão,
Como vou esquecer-te, como vou eu perder-te,
Se me prendes em ti, agarra-me ao chão,
Como barcos em terra, como fogo na mão,
Como vou eu lembrar-te se a metade que parte
É a metade que tens.

Tu és todas as noites, em todos os quartos,
Todos os ventos em todos os barcos.
Todos os dias, em toda a cidade,
Ruas que choram, mulheres de verdade.
Tu és só o começo de todos os fins,
Por isso eu te peço fica perto de mim.

Tu és todos os sons de todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.
Como uma ilha,
Sozinha...

Pedro Abrunhosa

21 setembro 2009

Corais



A ausência de pés me
possibilita voar
e fechar
as portas a quem
não desejo que adentre
em minhas utopias.
É tão bom estar
com você e esquecer
que lá fora os corais
entoam outros cânticos
e a harmonia é solidão.

Ediney Santana



Oração Celta



Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.



Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...

Alberto Caeiro


As imagens foram feitas no domingo, dia 20 de setembro, durante a visita ao zoológico do Balneário Camboriu, SC.

19 setembro 2009

Sem pretensão poética


A noite é um quadro adormecido,
Com a lua lendo a alma da gente.
Estes pensamentos dançantes,
Que penetram na noite
Enquanto morrem as estrelas.
Serenos silêncios da madrugada,
Coração deambulando saudades.

Amo a noite calada,
O som dos pios noturnos,
Os soluços da natureza e
O roçar das folhas nos telhados.
Vejo meu amor nas sombras da noite,
Quando vaga, viajante na noite fundida,
Desfaço a distância e me lanço ao vento,
Com o coração aberto à vida...

Sônia Schmorantz
20/03/2009



Felicidade (Guilherme de Almeida)


Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada"
e eu respondi:
"Bom dia, folha morta"
Entrou e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...
Então chamou-me e disse:
"Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz"
E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

Guilherme de Almeida

Imagens de hoje: Orquídeas por Fabio Visentin e Richard Detrich, homenagem à Primavera que chega neste domingo:

"Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar...."
Florbela Espanca



18 setembro 2009

Retrato de corpo inteiro


No azul do teu peito ensolarado
há espelhos de cristal multiplicando imagens.
Emergem risos, lágrimas, promessas
olhares infantis perdidamente
infinitamente apaixonados
adolescentes.
A vida renasce das tuas mãos tremulas
entrelaçadas
— há muito tempo entrelaçadas —
Reencontradas.
No espaço secreto da memória,
nosso retrato- De corpo inteiro -
É o quadro mais bonito
que se pode iluminar.

Anna Maria Feitosa ________________________________________
Viagem imagem coragem, Ins.Piaget - Div.Editorial, 1999 - Lisboa, Portugal
Imagens: Mariscal por Tom Schmorantz e Florianópolis por Gabriel Roitman

Azeite e Vinho


Ele sabe meus caminhos
mais secretos
minhas pedras cobertas
de limo
ele conhece a ossatura
do meu silêncio
e já subiu a bordo
dos meus pavores noturnos
ele já provou o sal
das minhas cordas marinhas
e no entanto às vezes
é como se fôssemos
azeite e vinho
cada um em sua noz
flutuando à deriva
na imensidão do planeta
cada um em seu aquário
de vazio e vidro
engarrafados para sempre
em nossa própria solidão.

Roseana Murray

Imagem:http://www.agmrc.org/commodities__products/fruits/wine.cfm
Imagem 2: Praia dos Ingleses, SC

17 setembro 2009

Fernando Campanella e Conceição Bentes


A poesia é algo assim
Como uma dúbia certeza,
Aposta de um tudo
No oco intraduzível do nada,
Algo como a luz-menina dos olhos
Entreabrindo a opacidade,
Sumo delicado
Espremido de alegrias
E enfermidade,
Efemérides
E ainda um certo milagre,
Pérola pescada
Insípida borboleta dos dias
Pela magia do verbo eterno
Encantada.

Fernando Campanella
http://fernandocampanella.blogspot.com/

Guardo a luz em velas
Que se dissolvem ao sol
Nas lindas manhãs
E nas mãos aqueço
A luz fria da noite
Onde as cores escurecem
Os sentidos claro da alma
Guardo as palavras sem cores
Entre os sonhos e segredos
Lembrando escrituras e estórias
Que não reviverei
Olho um horizonte distante
E adormeço com anseio
De alcançar coisas
Que nunca conheci

Conceição Bentes
http://conceicaobentes.blogspot.com/


Imagens: Mariscal, Praia dos Ingleses e Porto Belo, SC

16 setembro 2009

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

Dora Ferreira da Silva

Imagem 1: Richard Ditch, 2002
Imagem 2: Lagoinha Leste, encontro com o mar

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

.

.