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31 janeiro 2010

Tua dádiva



Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.

Abriga-me no teu corpo
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.
Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.

Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, a verdadeira,
chão de tua sombra que passa,
e da tua luz que se planta.

Lya Luft




Imagens de Florianópolis nesta manhã de domingo. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior. Leia também meus poemas em: http://schmorantz.wordpress.com

30 janeiro 2010

Sons Noturnos



As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.

Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.

Manuel Bandeira




Imagem 1: A coruja é uma linda vizinha, que está sempre por perto à noite quando volto do trabalho, máquina na bolsa não resisto e logo mais uma foto! As demais são aquelas imagens de beira de estrada que tanto gosto. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

29 janeiro 2010

Soneto do Corifeu



São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes




Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

28 janeiro 2010

Caminhos com Vieira Calado



Descobre-se o caminho pelo verde das árvores
pela toca onde hiberna o réptil,
uma aldeia nua num deserto
de árvores do deserto.

Sobe-se pelas suas vertigens,
o lugar onde colocamos o impulso do sangue,
as aranhas que temos no sítio da alma.

Por fim assentamos a flor dos pés na terra
para lermos, na obscuridade, sobre o chão, 
o ruído de todas as coisas.

Vieira Calado



Pelo caminho
deixo
o destino:
cores de mil cores
paixões
amores
que florescem
voam
arrefecem
e que no fim
fazem o pó
do universo
e de mim.

Vieira Calado


As imagens de hoje, são da beira do caminho, entre Praia dos Ingleses e a Lagoa. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior. Para ler poemas de minha autoria, acesse http://schmorantz.wordpress.com/

27 janeiro 2010

Eu gosto...



Eu gosto do asfalto molhado,
do cheiro do novo, do coração descascado,
das árvores que dançam ao relento,
do sabor do pêssego, do verso livre,
da voz poderosa e clássica do vento.

Gosto de imaginar como é a criança que mora
naquela pequena verde casa,
onde lá pelas duas da madrugada a luz se apaga,
enquanto eu continuo escrevendo, acordada, lendo,
fumando o último cigarro, à espera do sono,
do nascer dum novo dia, e quem sabe duma outra vida,
onde eu me sinta menos perdida e dividida.

Eu gosto de abandonar velhos hábitos para criar espaço,
de dormir no calor do verão com a janela aberta,
de sentir o frescor que entra no quarto como uma nova era,
da paz que me abraça apertado neste momento sagrado,
gosto de quem passa lá embaixo, na rua vazia,
e imagina como é a criança que sonha aqui em cima.

Isadora Krieger
http://duncankrieger.blogspot.com/




Imagens desta quarta-feira, dia 27/01/2010. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior.

26 janeiro 2010

Destino: viver



Acorda-me,
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.
A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.
Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.
Mas não pode voar.

(Eugénio de Andrade)



Não sei onde as gaivotas fazem ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.

(Vincenzo Cardarelli
Trad.: Priscila Manhães Lerner)



Leva-me a um lugar onde a paisagem
Se pareça àquela das visões da mente.
Que seja verde o rio, claro o poente
Que seja longa e leve a minha viagem.
Leva-me sem ódio e sem amor
Despojada de tudo que não seja
Eu mesma. Morna estrutura sem cor
A minha vida. E sem velada beleza.
Leva-me e deixa-me só. Na singeleza
De apenas existir, sem vida extrema.
E que nos escuros claustros do poema
Eu encontre afinal minha certeza.

(Hilda Hilst)

25 janeiro 2010

Poemas



Talvez o que sonhamos algum dia
seja o rio que fundou o povoado
da infância entre as estrelas
 
talvez a vida seja uma lenha que arde
no belo coração dos errantes

e a palavra que pronunciamos ao cair da noite
seja a chave da casa
dos espaços e tempos infinitos.

Maristeanne_CBritto
http://simplesmentelampejo.blogspot.com



Como um barco assim cheguei
na calma ondulação das tardes
e a ti eu aportei...

E lento eu desfiz
a armação das velas e te amei
enquanto o sol brilhava...

E nas gotas que ficaram
nas curvas do teu corpo
dos suores de nós...

Reentrei firme e fundo
e nessas águas inventamos
o caminho para casa...

Eduardo Leal
http://anossapena.blogspot.com/

24 janeiro 2010

Depois da Chuva de Fábio Reoli



E hoje eu clareio com a força de um nascer de Sol...
Na lembrança de nem se saber o que se foi
Como primeiro raio de Sol que beija
A menina descalça na areia

Não caminho mais com passos apressados
Tampouco as solas de meus pés reclamam
Pois a imensa profundidade desse mar me faz leve
Me faz abraço
Me faz gota

E pensar que ontem eu chovia
Chorando como nuvem em final de tarde quente
Trovoando verdades com papel e lápis
Fazendo relâmpagos de cada palavra
Mas amanheceu
 E a aurora beijou o mar
Citando versos e rimas

Estranhos como manhã de Sol e Lua cheia
E na manhã não mais chovia
Somente eu, ainda um pouco lágrima
Chovia saudades na areia
Na beira da praia
O Sol nascia
E eu chovia...
E nas poças dessa chuva
Moram sonhos
E nas gotas desse mar
Moram olhares
Moram amores
Moro eu...

 Fábio Reoli





Domingo de preguiça, as imagens foram tiradas da sacada, porque o azul do céu e as nuvens eram irresistíveis. Até duas corujas resolveram namorar no terreno ao lado, um espetáculo para assistir horas...



Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

AMO



Amo olhar o imenso areal parado no tempo,
Gaivotas sobrevoando, asas largas debatendo,
riscando o céu em vôos ignorados...
Amo os pássaros que semeiam cantos,
que vem em bandos, depois partem não sei para onde.
Mas deixam a paz e aos ouvidos o insistente canto.
Amo o som do mar, alegria vadia a invadir a areia,
passando, fluindo, cantando, sem parar...
Amo abraçar o vento, leve como o pensamento,
carregar conchas e sonhos, pensar que aqui sou feliz.
Se o tempo pesa nos ombros, confesso minha exaustão,
mas faço um novo poema para divertir a tristeza,
no final das contas a vida é boa e sonhos...bem,
sonhos são feitos para serem sonhados à toa...

Sônia Schmorantz



23 janeiro 2010

Luar Póstumo



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.

O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.

Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande...
Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!

Cecília Meireles




22 janeiro 2010

Serenidade



Transite com calma
entre as preocupações e a pressa
e não se recuse à paz do silêncio.

Mostre sereno e calmo a sua verdade
e escute a dos outros,
mesmo a dos pobres de espírito;
eles também têm o que dizer.

Evite os barulhentos e os agressivos;
Comparando-se com os outros,
evite a vaidade e a mágoa
eles constrangem o espírito.
porque sempre haverá gente
abaixo e acima de você.



Seja fiel a si mesmo.
Acima de tudo, nunca finja afeição.
Não despreze a sua carreira, por mais humilde que seja;
ela será um bem nas incertezas do amanhã.
Goze as suas vitórias
como os seus projetos.
mas não se esgote por ela.



Adote uma disciplina saudável,
Aceite de bom grado as ponderações da idade;
não se apegue aos bens da juventude.
Exercite a fortaleza de ânimo para se garantir
nos desastres súbitos.
Esteja, pois, em paz com Deus, com o seu Deus;
e sejam quais forem as suas lutas e os seus ideais,
viva em paz com sua alma, mesmo no fragor das batalhas.
Você é filho do universo
como as árvores e as estrelas
e tem o direito de estar aqui.
Tenha cuidado. Procure ser feliz.

Max Ehrmann


Clique nas fotos para vê-las em tamanho maior.

21 janeiro 2010

Depois da Chuva



Depois da chuva vem o céu de prata
a iluminar os caminhos molhados,
a imagem poeticamente cinza dos
pássaros esvoaçando em galhos nús,
e as nuvens se arrastando com o vento.

Depois da chuva, brota a poesia
das calçadas molhadas,da terra lavada,
do capim cheiroso de beira de estrada,
Empresta um sonho perfeito,
planta sementes de poesia.

A chuva que atravessa a paisagem
deixa cair amarras e passa por mim,
abre as secretas janelas para ler
os mudos poemas tamborilando
nas calçadas.

Sônia Schmorantz



Quem ama inventa



Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava .
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos ,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreição ...

Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente ,
Ou sozinhos , num ritmo tristonho ...
Ó! meu pobre , meu grande amor distante ,
Nem sabes tu o bem que faz à gente .
Haver sonhado ...e ter vivido o sonho!

Mário Quintana



20 janeiro 2010

Pequena Flor



Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
E se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
Na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme

E vê passarem as leves borboletas livremente
E ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia
E o sol claro do dia às claras estátuas beijando sente

E espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
Pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
A libertasse, porém a desprenderia do galho

E nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
- Assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
Há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida.

Cecília Meireles



19 janeiro 2010

A rotina



A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto

A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato
A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é rock

O coração é rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida
O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio

A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo

A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem sua beleza.

(Poema do Perfume da Natura "Todo dia")





* Indo para o trabalho, as imagens de hoje da Lagoa da Conceição, Florianópolis.

18 janeiro 2010

TESTAMENTO, ENTRE OS PINHEIROS E O MAR


                               
Se eu morrer primeiro do que tu,  
salva a ternura que salvei.  
   
Depois, se te doer, firma o olhar  
nas ondas mais longínquas do mar largo,   
destrói a dor nas lágrimas, e o vento  
que te esvoace a saia e o cabelo,    
pinheiro firme, cego dos sentidos,  
entre as flores silvestres e a espuma...  
   
E o indício de tudo ter passado  
(eu, um tempo feliz que se recorda)  
é sentires o longo, íntimo afago  
do marulho do mar, mão pelos cabelos... 

José Fernandes Fafe



Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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