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28 fevereiro 2010

AMAR



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que,
na brisa marinha, é sal, ou precisão de
amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor,
um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na
concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade




27 fevereiro 2010

Milagre


Eu caminhava entre árvores
E espremia nos dedos
O mudo cipreste, roçando
um acridoce olfato
Ao silêncio de meu nariz.
Ali entre cúmplices imagens,
Onde o vento me sabe
E o sem- fundo do lago me diz,
No frescor do mais contido sumo,
Cheirei a poesia, assim do nada,
E caminhei sobre as águas,
O naufrágio por um triz.

Fernando Campanella


Meu peito é uma praia lisa
e de aparente quietude.
Suas águas mais parecem
as águas mansas do açude.
Tudo ordenado, perfeito:
areias, pedras e mágoas.
Haverá algum pensamento,
nesta noite, sobre as águas?

Lila Ripoll


As imagens são de hoje na Praia do Santinho.
No Ilha da Magia os poemas são de minha autoria:

O cheiro do vento brota das folhas,
que cobrem a trilha que leva ao mar,
cheiro doce do mar quando a água
dança numa gostosa tarde de sol,
subindo nas pedras e explodindo no ar.
.......
(Clique no link ao lado para continuar lendo)

26 fevereiro 2010

Sinfonia do Mar



Navego com a sinfonia do mar
nas escalas que beijam a orla
indefinidas ,calmas ou aflitas
nos ventos que açoitam o percurso das gaivotas
nos solfejos , acordes que quebram em ondas
que fundem o azul e o verde.

Vago no olhar que se perde no infinito
que absorve pensamentos
transpõe espaços e momentos
quando o silêncio inunda a alma
nas velas trêmulas que sussurram canções
carícias com sopros de maresias.



Mergulho na contradição , em tantas fusões
no resíduos das pedras, nas algas e corais
no avesso, na candura e na aventura dos versos
na pauta das notas, nas teclas do meu piano
espelhando,espalhando os reflexos do sol ,do luar
nos instantes de tormentos
que se acalmam no crepúsculo
ao cavalgar com as luzes das estrelas
a orquestra em sinfonias
na sintonia em eterno movimento.

Maria Thereza Neves
Agosto de 2006


No Ilha da Magia: Se esvai o dia comum

25 fevereiro 2010

MAIS-QUE-PERFEITO



Haverá algum verso
capaz de descrever
o breve instante
em que, num só fôlego,
atravessa-se o silêncio
e o perfume existentes no ar?

Como traduzir,
naquele milésimo de segundo
e a mesma beleza que há
no brilho dos olhares
– rodamoinhos de mistérios
castanhos –
quando, revelando os sentidos,
buscam saciar a sede
do corpo inteiro?

Talvez seja impossível
descrever o encanto
de infinitos versos,…
tal a poesia nascida
do assovio dos rios,…
quando deslizam sobre as pedras,
inundando os veios das florestas,
preenchendo o abismo,
legitimando a vida.
Descrever aquele instante,
a harmonia existente
entre a graça e a volúpia,
haveria de ser música.

Rita Costa





Se esvai um dia comum

Se esvai o dia comum
nada especial aconteceu
tenho as mesmas cicatrizes,
sobrou um sorriso cansado,
um distante abraço,
uma alma junto à minha.
......................
(continue a Ler no Ilha da Magia)

24 fevereiro 2010

Poemas de Albano Martins



Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.
Um instante de nudez perfeita.



Onde se diz espiga 
leia-se narciso. 
Ou leia-se jacinto. 
Ou leia-se outra flor. 
Que pode ser a mesma. 
As flores 
são formas 
de que a pintura se serve 
para disfarçar 
a natureza. Por isso 
é que 
no perfil 
duma flor 
está também pintado 
o seu perfume. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"



Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?
Como o direi?
Como o calarei?

É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras. 

Albano Martins(in «Outros Poemas», 1951/52;
«Vocação do Silêncio»,
Poesia - 1950-1985)

23 fevereiro 2010

Mulher de minutos



Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem para debaixo do tapete sujo
Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga
 
Há sementes em meu ventre
São poemas que ainda não reguei
Prefiro guardá-los em silêncio
Até que o tempo amadureça meus minutos
E a vida me contemple com seus frutos

Não borro meus cílios com a solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Veleiros sem direção
Estou sempre na contramão.

Mônica Montone




Leia no Ilha da Magia: Melancolia

22 fevereiro 2010

Sinto-me dispersado



Sinto-me dispersado
em areia, alga, vento.
Que ficou do passado,
se o que resta é o momento?

Uma caricia vaga,
indecisa, procura
o que a memória apaga;
e de tudo perdura

leve aragem, não mais,
docemente soprando
junto às margens de um cais
que está sempre esperando.

Alphonsus de Guimaraens Filho





No ILHA DA MAGIA: Chuva na tarde

21 fevereiro 2010

Poema a um dia esquecido



Não me falem das pequenas coisas do mundo
Que dessas entendo eu, e não as quero!
Nem falem das grandes coisas do mundo
Pois delas nada posso receber, nem as espero.
Nem me sussurrem as coisas escondidas do mundo
Pois delas pouco consigo ver, quando consigo!
Nem me gritem as coisas evidentes do mundo
Que de tão visíveis, ofuscam o que guardo comigo.
Fico-me na candura do olhar e no doce cheiro do perfume
Na leveza do toque, tão imaterial quanto perene.

Jared Martin
umribatejanotranquilo.spaces.live.com/




Imagem 1: Forte de São Jose, Florianópolis, por Daniela Ortega
Imagens 2 e 3: Praia dos Ingleses nesse domingo

20 fevereiro 2010

O meu amor existe



O meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina.

O meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito.

O meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura.

O meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe...

Jorge Palma

19 fevereiro 2010

Uma Após Uma



Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

Ricardo Reis,
in "Odes"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)





No Ilha da Magia: Fim de Verão

18 fevereiro 2010

A Poesia de Mário Quintana



Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...



A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!



(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!
... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

17 fevereiro 2010

Pequenos Poemas



Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida. 

Hermann Hesse



Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! Não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

Miguel Torga



Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.

Fernando Campanella

16 fevereiro 2010

Poema



Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato de Faria




15 fevereiro 2010

Pastorinhas



A estrela d'alva no céu desponta 
e, tonta, a pastora vagueia na rua. 
Versos não tem. Canções, esqueceu, 
desde que aquele que amava partiu. 

Vai pela rua. E não vaga sozinha: 
é só mais uma dentre as pastorinhas 
que, para enlevo e consolo da lua, 
todas as noites caminham, silentes, 

como num bando de tímidas musas 
que, de tão tristes – já que abandonadas – 
na ânsia de serem amadas, frementes, 
deram-se à estrela – morenas e nuas.

[de “Poemário do desterro”]
Henrique Marques Samyn






As imagens de hoje, são um pouquinho das paisagens maravilhosas de um passeio de barco da Lagoa até a Praia da Barra. Aos poucos estaremos colocando mais! Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior. No Ilha da Magia, o poema Rumo ao Mar, que descreve um pouco do sentimento ao fazer este passeio.

14 fevereiro 2010

NADA SEI



Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.

Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente,
Ressuscitando.

O resto são palavras,
Que decorei,
De tanto as ouvir.

E a palavra,
É o orgulho do silêncio envergonhado.

Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.

E na minha mudez,
Aprende a adivinhar,
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga





O colorido destas últimas imagens de domingo, é para lembrar que ainda é carnaval, apesar de tudo!No wordpress Ilha da Magia: A Poesia virou confete!

13 fevereiro 2010

Nas asas da fantasia



Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...

Miguel Torga





As imagens são das primeiras escolas a desfilarem na madrugada deste domingo, em Florianópolis. Imagens da União da Ilha da Magia da Lagoa da Conceição e da Escola Consulado, por Hermínio Nunes (1) e Guto Kuerten (2 e 3). Leia no Ilha da Magia: Agora é carnaval.

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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