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31 março 2010

Vidas cruzadas


Nós dois somos um,
em segredos e desabafos,
falando o idioma da alma,
calados como o som do mar

Nos perdemos nas fronteiras
das grandes tempestades,
dissolvidas pelo vento
nas lágrimas do tempo

Reconstruímos nossa historia
na soma das fragilidades,
em sorrisos disfarçados,
nas palavras não pronunciadas

Nossas vidas se cruzam
no mirar atento do silêncio,
que afaga a magia de um encontro
que o tempo não apaga.

Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 28/03/10
Código do Texto: T2163543



30 março 2010

Alma minha


Nos caminhos da vida,
percorro rios infinitos,
desconheço os segredos da terra,
minha alma está além do horizonte,
entre os sonhos e o imenso mar.
Alma soprada pelo vento,
anda sem pressa entre nuvens.
Gosto da paisagem,
da luz entre as árvores,
do desconhecido mundo
que existe aqui dentro.
Que parte desconhecida me inspira?
De que sonhos minha alma dista?
Me perco em espaços desconhecidos,
meus poemas é que trazem
a força da minha alma refletida.
Minha força está num laço de amor,
que me enlaça inspirando coragem
para seguir nova trilha desconhecida,
apaixonante, sem retorno,
escondida na alma como uma ilha…

Sônia Schmorantz




No Ilha da Magia: AMO

29 março 2010

Fica a Paz


Fica a paz de um canto triste
dos riachos que vão embora,
vem a tarde e o canto insiste
nos meus ouvidos de aurora.

Resta uma chama encostada
numa sombra sem memória,
fica a noite e um quase nada
do que fora a minha história.

Não sou mais aquela infância
debruçada em teus terraços.
Vais!... E deixas a Esperança
desmaiada nos meus braços.

O homem nasce e vira glória
quando é pedra e vira a flor:
Deus então mais comemora
quando é barro e vira amor.

Afonso Estebanez


28 março 2010

Ilha Cor


A ilha é branca
Quando as gaivotas
Abrem as manhãs
E pousam no sorriso
Dos que amam!

A ilha é verde
Quando o ar das montanhas
Constrói telas nos olhos
Dos que vêem!

A ilha é azul
Se os peixes encantam pescadores
Na cumplicidade de uma noite!

A ilha é cinza
Se a luz dos teus olhos
Me queima as pálpebras
Naquele instante mágico
Que é prenúncio de tristeza!

Mas a ilha é arco-íris
Se as avenidas do teu sorriso
Me entram no coração!

Ou se os olhos querem ver
Ou se a boca quer amar...
A ilha é arco-íris
Se sou verdadeiramente homem
Para sonhar!

António Manuel de Castro
in «Mar Amor Ilha», ed. Jornal da Madeira, 1989
No ILHA DA MAGIA: Minha Ilha

27 março 2010

Dia de Domingo



Alguns guardam o domingo indo à igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um sabiá como cantor
e um pomar por santuário.
Alguns guardam o domingo
em vestes brancas
mas eu só uso minhas asas
e ao invés do repicar dos sinos na igreja
nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando,
pregador admirável
e o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao céu,
só no final
eu o encontro o tempo todo no quintal.

(Emily Dickinson, 1830-1886)



26 março 2010

A minha vida é


A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita.

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará.

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto.

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento.

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada.

Sophia de Mello Breyner Andresen



No ILHA DA MAGIA:
Chuva de Outono

25 março 2010

VENTO



Serei o vento que passa,
que fica e te leva sem asas.
Serei o vento que uiva
em árvores choronas,
choram suas folhas, balançando
com a chuva ,que depois as abandonam
Serei o vento que sopra na direção dos campos
cobrindo-te com seu manto de flores singelas,
flores de laranjeira, brancas e amarelas.
Serei o vento que apavora
na aurora de um amanhecer,
a tempestade que passa e deixa rastros.
Serei o sereno, o vento sem rumo
no prumo de um veleiro à mercê.
Eu me tornarei o vento .
Tocando-te os cabelos.
Beijando-te a face.
Entregando-te meu pensamento.
Serei como o vento...

Leni Martins



Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

24 março 2010

Brinquedo sério



Eu só brinco
quando é muito sério
ser o teu brinquedo.
Não tem mistério,
não tem segredo,
quando a gente brinca,
quando a coisa é séria
quando o teu limite,
é tão perfeito,
quando ser brinquedo
pode ser tão sério.
Pode haver um dia
em que a poesia
mude de endereço,
deixe apenas tédio,
mas enquanto isso
vem brincar comigo,
vamos até onde
possa ser só riso,
possa ir tão longe,
possa ser tão lindo,
pode ser brinquedo,
pode ser tão sério...

Alice Ruiz





No ILHA DA MAGIA: Feito chocolate quente...

23 março 2010

EVOCAÇÃO


                      
Há um silêncio que não tivemos tempo de construir. 
Tudo foi estrondo 
avenidas que se rasgaram e perpendiculares ao rio 
clarearam a cidade. 

Mas o silêncio do longo olhar, 
as mãos germinando quietas 
às luzes da cidade que o outono terá acendido mais cedo - 
o silêncio, não. 

Eventualmente regresso: 
manhã velada, tranquilo azul, ao fundo o rio. 
Tudo aqui. Exceto lembrança
de amoroso silêncio que não tivemos tempo de construir.

Soledade Santos



22 março 2010

Dois em Um



Assim que vi você
logo vi que ia dar coisa,
coisa feita para durar,
batendo duro no peito,
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você.
Parecia ter saído
de alguma lembrança antiga,
que eu nunca tinha vivido,
alguma coisa perdida,
que eu nunca tinha tido,
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido.
Agora não tem mais jeito
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura,
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei
parte da tua leitura.

Alice Ruiz






No ILHA DA MAGIA: Das Palavras...

21 março 2010

Prelúdio



Em um dia branco
alva era a flor
que o perfume trazia
em sulcos profundos
embriagando sentidos
rasgando caminhos
enquanto
à esperança gritava
...tecendo
novelos do tempo
que queria encontrar
asas para fugir
do intenso escuro
...que em malas
guardava
sonhos sem janelas...
 
Cláudia Gonçalves




Imagens de hoje em Itapema, SC.

20 março 2010

Chove agora...



Chove neste momento,
o mundo é miragem na vidraça,
tem água na paisagem e
alma se enclausura com cuidado.
A chuva apagou as estrelas,
formou um lago de memórias,
inquietudes, casa vazia…
Chuva cai e oculta tudo lá fora,
bate no vidro e traz saudade,
cai musicando nos telhados,
reverenciando a madrugada.
É chuva que cai na alma,
é o choro do vento na rua,
vagarosas horas de nostalgia,
acinzentando o peito,
quando a natureza entristece.

Sônia Schmorantz




Imagens 2 e 3 por Eduardo Poisl

Observação: Deixei de comentar em inúmeros espaços de amigos, que sempre visito, porque a configuração do comentário exige que aguardemos as letras, e estas não estão sendo mostradas. Por isso, àqueles que infelizmente não pude deixar uma mensagem, fica meu abraço e meus votos de um ótimo domingo!

19 março 2010

Enamorado da Vida



Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.
Bebo as estrelas de mais perto... Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.
Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.
Em cada mão de folha a minha boca bebe
O orvalho da manhã como um suave licor.
E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve
Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume
Que vem do amor e que me leva para o amor
Eu sou um enamorado da Vida!
Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer
Colinas, penetrar o coração dos vales,
Relinchando feliz como um potro selvagem
Que solta as crinas no ar para melhor correr;
Ou retesar as asas brancas de gaivota
E atirar-me na fúria incrível das procelas;
Beber em haustos toda a glória do mar alto,
Rolar no bojo dos batéis desarvorados
Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas
Vida! Quero viver todas as tuas horas,
As que prendi na mão e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no espelho das paisagens
Para, quando morrer, levar dentro dos olhos
A beleza imortal de tudo quanto amei.

Olegário Mariano



18 março 2010

Começo do dia



Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.

Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.

Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.

Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?

Cecília Meireles







No ILHA DA MAGIA:
QUERIA...

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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