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31 maio 2010

E então ficamos os dois


E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

J.G. de Araújo Jorge



Imagens de hoje, a caminho do trabalho, Lagoa da Conceição.

30 maio 2010

Sopra-me


Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.

Fernando Campanella




29 maio 2010

Fascinação


Um amor enamorado sazonado
Me vem à memória a todo o instante
Um sonho mágico apaixonado
Sendo assim perene quão constante!...

Relembra uma formosa rosa perfumada,
Ou amor-perfeito delicado
Quiçá aquela orquídea graciosa
Ou da hortência os tons de matizado!

Permanece sempre tua matinal ternura
Tua alegria, teu sorriso, tua mansidão
Num seduzir que o sonho perdura!

Vai embrenhando todo o coração
Ao manto de ternura que teceu
Noturnos de soberba fascinação!

Efigênia Coutinho



28 maio 2010

Dia Comum


Se esvai o dia comum
nada especial aconteceu
tenho as mesmas cicatrizes,
sobrou um sorriso cansado,
um distante abraço,
uma alma junto à minha.

O dia irá amanhecer,
o sol haverá de inundar a vida
para dizer que ainda não morri,
que sou como a maré,
sempre voltando e voltando.

Acorda-me um rufar de asas no telhado,
a intraduzivel conversa das pombas,
quando arrulham aos pares nas manhãs,
tecendo o tempo, os dias e as horas.

Entra o dia pela janela sem persiana,
preciso aprender alguma canção,
quebrar o silêncio e não adormecer,
é este perene cotidiano,
que me traz de volta pela mão...

Sônia Schmorantz


Fim de tarde, da sacada de minha casa.

27 maio 2010

Um breve olhar


Lá em cima, no ar
Sobre a monotonia destas casas
Sulcando, sereníssimas, os céus,
Abrem a larga rima das suas asas,
Lenços brancos do azul, dizendo adeus
Ao vento e ao mar.

Eu fico a vê-las
E meus olhos, de as verem, vão partindo
E fugindo com elas;
E a segui-las eu penso,
Enquanto o olhar no azul se espraia e prega,
Que há uma graça, que há um sonho imenso
Em tudo o que flutua e que navega…

Para onde se desterram as gaivotas,
Contra o vento vogando, altas e belas,
Essas voantes e pairantes frotas,
Essas vivas e alvas caravelas?

Vão para longe… E lá desaparecem,
Ao largo, por detrás do monte;
E os nossos olhos olham e entristecem
Com as vagas saudades que merecem
As coisas que se somem no horizonte!


Afonso Lopes Vieira
In "Canção do Vento"
(Leiria, 26 de janeiro de 1878 - Lisboa, 1946)
Postado no blogger http://portugalpoetico.blogspot.com/



26 maio 2010

Mais um dia de outono


Mais um dia de outono
dia frio de outono
ventos de maio me valem
caminho distante de meus passos
e firmo meus pés em certezas exploráveis
rostos passam por mim e nem vejo
sorrisos me acompanham, mas nada almejo
isso é só hoje
só por hoje, espero
silencio ousados batimentos
suspiro lenta e pisco rapidamente
busco todo o ar que posso
jogo o choro pra dentro do esquecimento
meus dias de outono darão histórias a contar
uma leve e embriagante nostalgia me toma
mantenho meus pés no chão
imploro por certezas
invadem-me as dúvidas
cantarolo qualquer coisa
brinco, faço rimas
sorrisos me escapam
lágrimas esquecem que deveriam estar esquecidas
e cá estou eu, com mais essa história pra contar

Ana Carla
Publicado no Recanto das Letras em 03/05/2010
Código do texto: T2234497



25 maio 2010

De vez em quando paramos de crescer


De vez em quando paramos de crescer,
é das raízes afundadas na terra doce
do sol esplendendo só por esplender.
De vez em quando voltamos a crescer,
não cabemos na casa da pele do olhar,
ruímos para dentro tudo por fazer outra vez.
Entre um dia e outro somos só caminho
vigília breve na terra áspera
e mãos transidas de luar.

Soledade Santos



Imagens deste dia 25, à caminho do trabalho, Lagoa da Conceição

24 maio 2010

Viver Habitualmente


Manhãs de sol e frio –
caminhar com intuito,
saudar quem se cruza comigo, pontes
de humanidade nos dias sem história.
Suga a umidade da pele o ar limpo,
mas devolve ao olhar um brilho
que só o frio conhece
na córnea lavada das madrugadas.
E ao fim do dia regressar –
tem outra qualidade o ar
do crepúsculo
e às vezes anuncia,
se o vento se aquieta,
a geada da noite
e a vinda de uma lua forasteira
que se molda à curva do meu sono.

Soledade Santos



22 maio 2010

Rio do Tempo


A sisudez do tempo não esconde o cansaço,
o desassossego da alma, mas
o lamento das coisas dissolve-se em lembranças,
que ainda guardam a limpidez das águas da infância,
reparando conquistas e derrotas ao redor dos dias.
Memória serena como a dos rios
que seguem eterna viagem para o mar,
mar que também é pura vivência,
sentinela de sonhos,
a guardar os segredos do vento.
Rio e mar são preces a decantar o tempo,
na vigília da memória e das trilhas percorridas,
um ofício íntimo a experimentar maturidades,
que fio por fio vai tecendo um poema de vida.
Não há pranto que aqui se demore,
assim como não há felicidade perene,
mas a vida é assim, esta água cristalina
a escorrer no leito dos rios,
lavando as ruínas deixadas pelo caminho,
espelhando amor de diferentes quimeras.

Sônia Schmorantz



POEMA EM SEDE DE SOLIDÃO


Na penumbra da sala de visitas
o pensamento perscruta
a psicologia do instante,
as palavras declinam
a caligrafia das sílabas
e preenchem o vácuo da memória
quando o tempo deslinda
o enigma das horas.
Esta casa já me viu em instantes lúcidos
(carregando risos largos)
hoje me vê sonâmbulo
vadiando pelas veias da casa
( corredores e quartos),
caminhando como automato.
(Ah, esta saudade nunca se rende!)
Lá fora a noite sem lua
sombreia o velho alpendre
e engole ávida a rua.

Julio Rodrigues Correia




19 maio 2010

CEM MIL VISITAS

CANÇÃO À MENINA


Se meço e tropeço no que não acerto

A menina que fui, rindo, diz baixinho
Que o mundo é uma bola ainda azul
Que o mar trepa as rochas e que recua
Em danças de espuma e ventos cruzados
Que tudo se renova na vertigem da mente.

Se receio e fujo do que não entendo

A menina que sou, crente, diz baixinho
Que no chão há a relva, as flores e as pedras
Que no céu há os pássaros, as nuvens e o sol
Que cada momento é um sopro de vida
Em que a menina tem que compreender
Que quem mata a esperança é a própria menina!

Vóny Ferreira


OBRIGADO ESPECIAL A TODOS VOCÊS
POR ESTAS 100 MIL VISITAS!

18 maio 2010

REPOUSO


Dá-me tua mão
e eu te levarei aos campos musicados
pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros
nos disputem os frutos,
antes que os insetos se alimentem
das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão e eu te levarei a gozar
a alegria do solo agradecido,
te darei por leito a terra amiga e
repousarei tua cabeça envelhecida
na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
e as palavras do meu olhar
sobre tua face muito amada.

Adalgisa Nery



17 maio 2010

Foi ciúmes...


A zanga passa
Se a saudade deixa de ser triste
O amor resiste
Quando o ciúme se desfaz
A dúvida se perde na certeza
Se o bem-querer falar mais alto
O amor se multiplica
Quando recebe um doce beijo
O desejo aumenta
Se apontar na direção certa
O coração deixa de sofrer
Quando dois batem ao mesmo tempo
A mágoa perde o sentido
Se não foi por malquerer
O amor dobra de tamanho
Quando a lua está de fora
A lua fica mais bonita
Se a sua volta for completa
E eu me sinto mais inteira
Quando olho pra você.

Glória Muller
http://semmedodemeexxpor.blogspot.com/



16 maio 2010

Lindo é saber...


Lindo é saber...
Que estrelas estão sempre lá
quando nuvens escorrem nas retinas
Dividir o pão,
quando é só pedaço
Tirar suco da fruta,
já bagaço
Dormir com a barriga roncando
a fome de amor
sabendo que a cura está no beijo
Ouvir a melodia
e a letra florescer na garganta
Amar descaradamente
esperando de janela aberta
que o céu devolva
o que já foi santo!
Saber que o tempo passa
mas sempre fotografa e guarda
a doce alegria de ficar para sempre!

Socorro Moreira




15 maio 2010

Interior


Anoitece no tempo
mas os sonhos permanecem:
azuis,
silenciosos,
necessários.
E a cada respirar dos
relógios,
lembro de emoções
que não podem ser apagadas,
fortes companhias
para não esquecer
do frasco de estrelas
que mora dentro de nós.

Wilmar José Matter




14 maio 2010

À BEIRA-MAR


Convém camuflar
nas profundezas da alma
as palavras mais puras.
Fixar o olhar na areia macia
onde, a todo instante,
a espuma branca faz carícias.

Melhor seja que a brisa
– mistura de sal e maresia –
castigue os lábios em sorriso,
carregando pro mar
o mais leve sussurro,
pairando sobre as ondulações
as palavras proibidas.

Sendo assim,...
que só as aves marinhas
decifrem a poesia que existe
quando minhas lembranças,
façam aflorar dos sentidos
os desejos mais além,...
mergulhando-as em sonhos,
no abissal das emoções...
como convém!

(Rita Costa e André L. Soares)



13 maio 2010

Um grande amor


Um grande amor não cabe em nenhum verso,
Como a vida não cabe num jardim,
Como não cabe Deus no universo
Nem o meu coração dentro de mim.

A noite é mais pequena que o luar,
E é mais vasto o perfume do que a flor...
É a onda mais vasta do que o mar...
Não cabe em nenhum verso um grande amor.

A voz do coração não quer mordaça.
Todo o amor obedece ao mesmo rito...
Amar é ter no peito o inferno e a graça,
Um pouco de miséria e de infinito.

Dizer em verso aquilo que se pensa?
-ideia de poeta, ideia louca!
Não é bastante a frase mais extensa,
Diz mais o beijo do que diz a boca...

Ninguém deve contar o seu segredo...
Versos de amor, só se os fizer assim:
Como os pássaros cantam no arvoredo,
Como as flores se beijam no jardim...

Redondilha de amor... para fazê-la,
Desse-me Deus a tinta do luar,
A candeia suspensa duma estrela
E o tinteiro vastíssimo do mar...

Fernanda de Castro



Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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