.

.

31 outubro 2010

Para ti


Foi para ti que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos vivendo
de um só amando de uma só vida.


Mia Couto



AMIGO


No rumo certo do vento,
amigo é nau de se chegar
em lugar azul.
Amigo é esquina
onde o tempo para
e a Terra não gira,
antes paira,
em doçura contínua.
Oceano tramando sal,
mel inventando fruta,
amigo é estrela sempre
no rumo certo do vento,
com todas as metáforas,
luzes, imagens
que sua condição de estrela contém.



Roseana Murray
Poemas de Céu, ed. Paulinas


Imagens Barra da lagoa e Praia Mole

28 outubro 2010

O Vento e a Poesia


Enquanto nas sombras da noite
o pranto cálido e crédulo jazia,
Tocou-me o vento,melodia triste
 na alma pousando-me a poesia!
Rôtas as lembranças, pensamentos
afluiram com a voz do vento
desenhando teu rosto, tão amado.
 Traços de um retrato abstraidos...
O que fazer do brívido da poesia...
 Se escrever-te versos eu não podia e
Então os tecia entre palavras frágeis...
Dedilhei rimas concavas de ternuras
nelas excomungando a minha dor
em sílabas grávidas de amor!


Theca Angel


Imagens da Lagoa da Conceição

24 outubro 2010

Tardes de Primavera


Tardes de primavera morrem devagar,
como vento que balança flores,
num dourado bordado de pétalas
dançando...
Tardes de primavera são mornas,
morrem serenas como deveriam ser
todas as mortes...
Tardes de primavera são pássaros,
voando em direção ao sol
morrem esvoaçantes no horizonte...
Tardes de primavera são doces,
Horas que morrem lentas e douradas,
dispersas no sol poente...
Tardes de primavera são assim,
douradas e serenas mortes
também no coração da gente...

Sônia Schmorantz




23 outubro 2010

Uma Canção


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças...

(Carlos Drummond de Andrade)




20 outubro 2010

Quando...


Quando você não aparece
o dia não acontece
pássaros ficam mudos
barcos se perdem,
e as ondas vão para alto mar
a procura do vento...

£UNA



14 outubro 2010

Poemas de Amigos


Sou das poesias
no mar das maresias,
no ar dos pássaros,
sou pequeno na estatura
mas grande para abraços.
Sou das ruas becos e avenidas,
pois que ali prendi muito na vida,
morrerei com poesias presas a garganta.
mas no meu túmulo quero escrito lindo:
mora aqui uma alma silenciosa que canta.

Antonio Campos 21/04/10.


Imagens de Eduardo Poisl

12 outubro 2010

Mãos no Vento


Trago no afago do vento,
perfumes das auroras,
renuncias das lembranças 
que foram embora

Meu horizonte é muro sem vigias
composto de malhas
que fenecem em suas falhas,
como o céu que se aprofunda
num passado que se arrasta noite a fora.

Quando tudo é tão tudo
e ao mesmo tempo é nada,
equilibro a rebeldia do tempo,
no consumo das horas
onde minha alma se reveste de paz

Conceição Bentes



11 outubro 2010

Se eu pudesse...


"... E se eu pudesse 
me embriagar de um poema... 
Se a pena que trago 
em frases me fizessem chegar 
n'algum lugar... 
Seria mar, chão batido e luar... 
Seria cada gota d'água 
desaguando nas letras 
de qualquer poemar."

Pedro Miller


Imagens da Praia Mole, Florianópolis/SC

10 outubro 2010

XV


Que o amor me possa dar tudo que espero: 


a cálida manhã, o aflito, esquivo 
carinho, que se faça mais sincero 
quanto o meu corpo reclamá-lo vivo...

Que me dê a alegria de uma infância 
molhada de um abril fresco e macio. 
Que me traga um perfume de distância, 
de frutos, flores, sombras quentes, frio...

Que o amor me seja a luz doendo em lentas
oscilações de adeus na montanha...
Que o amor me seja a escada, o meu pomar,

o pouso, as madrugadas friorentas, 
o corpo claro, a voz, a febre estranha,
e o reino, e o reino para além do mar...


Alphonsus de Guimaraens Filho



07 outubro 2010

Tenho um amor



Tenho um amor fresco e com gosto de chuva,
e raios e urgências.
Tenho um amor que me veio pronto.
Assim, água que caiu de repente.
Nuvem que não passa.
Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo.
Um amor susto.
Um amor, raio trovão fazendo barulho.
Me bagunça.
E chove em mim todos os dias.

Caio Fernando Abreu




05 outubro 2010

Destinos



Da memória
às vezes resta
a esperança
de resgatar
a alegria da infância
que se escondeu
entre as fímbrias do sonho.
Mas tem três destinos
a saudade
quando nada mais se espera:
a noite profunda
dos degredos,
a melancólica dor
do fim de tarde
ou o encanto
da poesia em primavera.


Cio Nascimento
 18/02/2009



03 outubro 2010

Doce Medo


Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo,
dessa beleza das noites secretas
quando chegas sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo de que um dia queiras cessar
esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu. 

Lya Luft



01 outubro 2010

Esperança


A esperança me chama,
e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for, eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.

Lya Luft


Imagens do Costão do Santinho

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

.

.