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28 abril 2011

Entre a promessa e o sonho


Há entre a promessa e o sonho, 
um amanhecer azulado de lírio, 
um cheiro morno de colo, 
um suspiro de espera. 
Há entre nossas vidas um laço de vida 
nenhuma que se ata além do apreensível. 
Há entre mim e ti um tanto de espaço 
que se dobra e nos junta 
como se reordenasse todas as coisas. 
E então eu adivinho teu sorriso 
e tu intuis o meu olhar. 
Eu pressinto teus lábios e tu imaginas meu corpo. 
Eu sonho teu gosto e tu prevês minha entrega. 
Há entre o delírio e o real, um tanto de nós 
que já existe, agora. 

Ticcia


Imagens: Praia do Sambaqui, Florianópolis

24 abril 2011

Um breve olhar


Lá em cima, no ar
Sobre a monotonia destas casas
Sulcando, sereníssimas, os céus,
Abrem a larga rima das suas asas,
Lenços brancos do azul, dizendo adeus
Ao vento e ao mar.
Eu fico a vê-las
E meus olhos, de as verem, vão partindo
E fugindo com elas;
E a segui-las eu penso,
Enquanto o olhar no azul se espraia e prega,
Que há uma graça, que há um sonho imenso
Em tudo o que flutua e que navega…
Para onde se desterram as gaivotas,
Contra o vento vogando, altas e belas,
Essas voantes e pairantes frotas,
Essas vivas e alvas caravelas?
Vão para longe… E lá desaparecem,
Ao largo, por detrás do monte;
E os nossos olhos olham e entristecem
Com as vagas saudades que merecem
As coisas que se somem no horizonte!

Afonso Lopes Vieira



Imagens de Itapema-SC, Ponte da Cruz Quebrada, neste domingo de Páscoa.

21 abril 2011

Crer na Ressurreição


Crer na Ressurreição
é desejar a Vida quando tudo
convida a deixar-nos morrer.

Crer na Ressurreição
é esperar
quando não temos razões para isto,
é confiar
quando não temos garantias,
é crer
quando não temos provas.

Mais ainda, é habitar a ausência
de uma nova presença,
é povoar a desilusão
com novos sonhos,
é transformar o desencontro
em espaço para novos encontros.

É o inverno que se põe
a esperar a primavera,
é o fio de água no deserto,
a flor que nasce na terra seca.


Ir. Emanuela / OSB
http://philocalia.com.br/pastoralis/?p=678


19 abril 2011

Fico Sozinho com o Universo Inteiro

 
Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, 
Por toda a parte das coisas sobrepostas, 
Os andares vários da acumulação da vida... 
Calaram o piano no terceiro andar... 
Não oiço já passos no segundo andar... 
No rés-do-chão o rádio está em silêncio... 
Vai tudo dormir... 

Fico sozinho com o universo inteiro. 
Não quero ir à janela: 
Se eu olhar, que de estrelas! 
Que grandes silêncios maiores há no alto! 
Que céu anticitadino! — 
Antes, recluso, 
Num desejo de não ser recluso, 
Escuto ansiosamente os ruídos da rua... 
Um automóvel — demasiado rápido! — 
Os duplos passos em conversa falam-me... 
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me... 
 Vai tudo dormir... 

Só eu velo, sonolentamente escutando. 

Esperando 
Qualquer coisa antes que durma... 
Qualquer coisa. 


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Cachoeiras de Goiás por Daniela Ortega
Praia dos Ingleses
Imagem 1: Lua na Praia da Joaquina

16 abril 2011

És como o ente da noite...


És como o ente da noite
que na mistura de neblina e lua
sorves as paixões frias da rua.
És como areia pronto
para ser levado por sopro alheio
ou pela insanidade ensimesmada de teus devaneios.
És como nuvens brancas ídas
que se mesclaram a céus vermelhos
no entardecer da vida.
És como água de fonte se esvaindo pura,
roçando pedras soltas,
escorregando livre sob pontes nuas.
És vulto solitário que se extasia
na silenciosa madrugada fadada
a não ser noite…a não ser dia…
ao nascer…noite
ao morrer … dia.

Vera Stockler

Praia Mole
Dunas na Lagoa da Conceição

12 abril 2011

Feito nada!


As trovas que saem de meu peito,
Às vezes saem caladas,
Feito porteiras fechadas,
Feito o vento que passa,
Feito parte da fumaça...

São fagulhas de minha alma,
Às vezes estrelas no céu,
Feito pétalas ao léu,
Feito grama de pastagem,
Feito essa aragem...

São as sombras de meu deserto,
Às vezes carinho e amor,
Feito rasgo sem pudor,
Feito paixão sertaneja,
Feito viola e cerveja...

São pedaços de um mosaico,
Às vezes riacho manso,
Feito sombra e descanso,
Feito o cego e a guia,
Feito verso e poesia.


Santaroza

Praia Mole
Praia Mole

10 abril 2011

Lâmina de Mágoa


Na palavra desarmante
me encontras presa
oscilante
entre a manhã que adivinho
e a noite que anuncias.
E é na orla dos dias
desse difícil caminho
que te chamo amor
amante
lançando a voz sobre o fio
dessa lâmina de mágoa.
Vê que no leito do rio
que o teu olhar alcança
o meu corpo é a água.

Publicado por Lique no site http://mulher50a60.weblog.com.pt/arquivo/poesia/
em 22/maio/2006





08 abril 2011

Canção do Amor-Perfeito


Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo 
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.

Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço. 

Cecília Meireles
Praia do Santinho
Praia do Santinho

07 abril 2011

Remanso


Tarde triste e silenciosa
de vila de beira mar:
uma tarde cor-de-rosa
que vai morrendo em luar...

Ao longe, a várzea cintila
de uns restos de sol poente;
mas, por sobre toda a vila
-- do morro a que fica rente --
desce uma sombra tranqüila
e anoitece lentamente.

Nem rumor da natureza,
nem eco de voz humana
perturba a infinita calma,
a solitária vila praiana.

Nem se ouve o mar, longe, e manso!

A tudo, em redor, invade
um ar de mole descanso...
Silêncio... Imobilidade...
Como que interrompida
a correnteza da vida
fez neste ponto um remanso.

Vicente de Carvalho

Praia da Armação
Ingleses
Imagem 1: Praia da Joaquina

04 abril 2011

Às seis da tarde


Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isto
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor.
Choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Marina Colasanti

Praia do Pântano, Florianópolis
Meia Praia, Itapema

02 abril 2011

Outono



O outono já chegou - aos arrufos do vento
as folhas num desmaio embalam-se pelo ar...
- vão caindo... caindo... uma a uma, em desalento
e uma a uma, lentamente, vão no chão pousar...

O céu perdeu o azul - vestiu-se de cinzento 
e envolveu na neblina a luz baça do luar...
- na alameda onde vou, de momento a momento,
há um gemido de folha a cair e a expirar...

O arvoredo transpira as carícias dos ninhos,
e o vento a cirandar na curva das estradas
eleva o folhareu no espaço em redemoinhos...


Há um córrego a levar as folhas secas em bando...
- e à aragem que soluça entre as ramas curvadas,
parece que o arvoredo em coro está chorando!...

 J. G. de Araújo Jorge




Praia dos Ingleses

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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