.

.

31 agosto 2011

Vento



O vento passa nas tardes mornas,
Sinto seu abraço,
Sinto que vive e canta dentro de mim.
Sinto o sopro do vento, o cheiro do mar,
O ilimitado do céu vazio,
Ar que penetra suave e reascende uma
Chama cósmica em meu coração.
Abençoada seja esta natureza silenciosa.
Há uma parte de mim que se ausenta
E parte com o vento,
Todos os dias um pouco,
Enquanto o poente no céu se estende
Numa saborosa melancolia...
Mas agora volto.
Volto à minha vida,
Hora de seguir caminho,
Natureza e vida ainda sorriem para mim...

Sônia Schmorantz





27 agosto 2011

Chuva, por Juan Gelman


Hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
Meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor,
uma carta à mulher que vive com ele,
cozinha para ele e lava a roupa para ele,
faz amor com ele e parece sua sombra.
Meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher,
entra em casa pela janela e não pela porta.
Por uma porta se entra em muitos lugares,
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo.
Mas não no mundo,
nem numa mulher, nem na alma,
quer dizer, nessa caixa ou nave ou chuva
que chamamos assim.
Como hoje, que chove muito,
e me custa escrever a palavra amor.
Porque o amor é uma coisa
e a palavra amor é outra coisa,
somente a alma sabe onde os dois se encontram,
e quando, e como,
mas o que pode a alma explicar?
Por isso meu vizinho tem tormentas na boca,
palavras que naufragam,
palavras que não sabem que há sol
porque nascem e morrem na mesma noite em que amou,
e deixam cartas no pensamento
que ele nunca escreverá,
como o silêncio que há entre duas rosas,
ou como eu, que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva,
à chuva, ao meu coração desterrado.

Juan Gelman (in Chuva e outros Poemas)



23 agosto 2011

Harmonia em Pétalas




Há mais que um caminho possível.
Mudar a direção também é uma escolha.
As árvores perdem folhas todos os dias
e nunca deixam de sentir a dança do vento.
As flores transformam-se infinitamente,
dão lugar aos frutos

mas jamais seu perfume é esquecido.
Os rios mudam a sinuosidade das margens
mas sempre deslizam em seu leito.
O amanhã nasce todos os dias
mas nenhuma manhã é igual à outra.
Mudar é ser fiel à novidade da vida.
Mudamos para descobrir que somos os mesmos.

Sílvia Mello


20 agosto 2011

Casamento


 

Que o amor seja tão intenso,
Que suporte a rotina inevitável.
Que seja como o céu... Imenso...
E não veja no outro os defeitos... Insuperáveis.
 
Que seja este sentimento muito forte,
Para que cada dia apague uma agonia.
Que saiba navegar para o norte...
Quando ao sul... Apresenta-se com ventania. 

 Que com o passar do tempo,
Seja cego para que não veja tudo.
Que possa com sabedoria... Como o vento...
Varrer com força e para longe o luto.

 Que dois sejam sempre um,
E que um possa ser sempre dois...
Para que assim o gosto amargo do rum,
Apague o gosto do feijão com arroz.

 E que sejam os dois... Quando necessário,
Surdos... Mudos e cegos...
Pois só assim... Ambos solidários,
Não ferirão ferozmente o ego.

 E que se durar... Que dure,
Pois pode faltar coragem para mudança fatal.
Ou mesmo desejos de mudar plano...
Receio que sonhos furem.
Alguns... conformam-se com uma existência banal.

Marilene Mees Pretti



Imagens do jardim da empresa Oi SC, Florianópolis.

15 agosto 2011

A Perfeição





O que me tranqüiliza 
é que tudo o que existe, 
existe com uma precisão absoluta. 
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete 
não transborda nem uma fração de milímetro 
além do tamanho de uma cabeça de alfinete. 
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. 
Pena é que a maior parte do que existe 
com essa exatidão 
nos é tecnicamente invisível. 
O bom é que a verdade chega a nós 
como um sentido secreto das coisas. 
Nós terminamos adivinhando, confusos, 
a perfeição.






13 agosto 2011

Dia dos Pais com Mário Quintana


As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

Mario Quintana



06 agosto 2011

Numa folha do diário



Há sonhos antigos
que habitam meu outro lado
como se a alma de porta aberta
fosse uma casa abandonada
por fantasmas de ancestrais...
... sempre me deixam rosas
desaparecidas entre o legado
dos escombros... 

... como se meu coração fosse
aquele velho salão das armas
de um barão que não se sabe
se morreu daquela obscura
sensação de peso do crepúsculo
nos ombros.

Mas chego sempre ao final da rua
(ou do sonho) e percebo que minha
sombra sempre fica para trás
levando minh’alma só...
...e sempre volto e vejo
que lá está minha alma no jardim
com seu infinito olhar de rosas
debruçado na janela da alvorada... 

Compreendo então que somos
dois para apenas um sonho só
ou dois sonhos para min’alma só.
Um de mim apenas ressonha
os sonhos que o outro sonha
– como o vento e o pó...


Julis Calderón


Sambaqui, Florianópolis, SC

04 agosto 2011

Mais um aniversário no dia 05


Eu vi os anos passarem
Primaveras mudarem de cor
Vi o pintor brincar com a arte
Na tela da face que mudou.

Eu vi o sol abrir o céu
Vergel em nuvens brancas
Vi os barcos de papel
Remarem minha criança.

Eu vi tantas vistas
Tantas pistas de esperança
Vi artimanhas embutidas
Num canto da lembrança.

Eu vi a dança do vento
No tempo que passou
E o que restou dos momentos
Que a vida expirou.

Eu vi o tempo esvair
Ao perseguir os sonhos
Vi o tamanho do porvir
E seguir os anos.

E assim passará o tempo
Levando os momentos e me deixando
 
Ficando eu, sigo vivendo 
E a vida me espiando.

Ivone Alves Sol
Com Eduardo
Com os 4 filhos: Tom, Carol, Kevin e Edio
Com minha mãe
Em mais este aniversário, é minha família, meu melhor presente!

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

.

.