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18 outubro 2009


Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!
Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.
Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...

Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!
Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...

Pedro Homem de Mello



Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz.
Amarrei, até, no pulso o amor-perfeito
que foi secando no meu peito e retomei a velha máxima:
não deixar que qualquer angústia atinja o coração.
Um castelo de areia, é tudo quanto quero
para acostar o meu barco de papel.

Aproxima os olhos da vertigem e estremece
com a luz espessa, que brilha nos teus ombros.
No céu do teu país, as estrelas podem ser barcos,
se quiseres sulcar os mares do coração em desordem.

Graça Pires


Imagens: Sônia Schmorantz

Incontáveis...


Incontáveis…
As muitas tardes em que tudo que eu tinha:
era apenas o úmido beijo teu
e o cuidado teu em não deixar se perder,
As nossas muitas lembranças,
de antigos outonos em que nós dois,
Nos reinventamos em acordos e desacordos,
Arranjos e desarranjos!
A paisagem do lado de fora, extasiada,
assistia atentamente as nossas percepções humanas
Enquanto ardia a lenha e o chá esquecido de lado,
esfriava na xícara!

Vez em quando ressurge em minhas vilas e aldeias
latejando, persistente a idéia de abraçar
certas manhãs de junho!

Lunna Guedes em “Farfalla”




Imagens: Tamine e Sônia Schmorantz

17 outubro 2009

Componho o céu



Componho o céu
do tanto que tenho o teu canto,
componho o céu e o vento,
transportando azul em poeira de luz.
pela voz que te necessito
e as asas em que reflito
e me reconheço.
pelo sol com que me aqueço
e vou.
pela verdade com que amo
tanto tanto
e sou,
eu tenho no ser e no tempo,
no céu e o lamento,
o teu amor.

Célia de Lima
06/07/2009




Imagens 1 e 3: Tamine
Imagem 2: Sônia

16 outubro 2009

Encantamento



Contemplo o brilho das estrelas
a presença da luz do luar
navegando nesse
mar de sentimentos onde
sempre existem tormentas
ondas revoltas que me levam
à loucura....e me fazem chorar!

Encanto-me com o verde de
teus olhos mas
como navegar se nunca existem
momentos serenos que se possa
deslizar ...tu e eu...
- nós dois suavemente -
para que possamos nos amar?

E nos meus sonhos
onde consigo voar em
perfeita liberdade
como os pássaros
que povoam o meu céu azul...

À tua espera mesmo que
sejam longas as horas e
que a tua chegada seja
apenas desejos de meus versos
encantamento
dessa noite de luar!

Celina Vasques e Maria Catherine



15 outubro 2009

Uma Após Uma



Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconseqüente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

Ricardo Reis,
in "Odes"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)



Imagens: Praia Daniela, Costão do Santinho e Praia do Forte

14 outubro 2009

Descoberta



Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto,
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.

Ruy Espinheira Filho





Imagens do Forte São José em Florianópolis, construído no século XVIII, como parte do sistema defensivo para consolidar o domínio português no sul do Brasil. É um dos três fortes que formavam o triângulo defensivo da barra norte da ilha de Santa Catarina.

13 outubro 2009

Poeta & Poetisa


Encosta-te em mim
Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.

Eugénio de Andrade




O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

Flora Figueiredo



Um dia iluminado para todos!

A Ver o Mar


Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que os meus olhos se viram no seu olhar
Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar
Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar
Daria prá pintar todo azul do céu
Dava prá encher o universo da vida que eu quis prá mim
Tu...do que eu fiz foi me confessar
Escravo do teu amor, livre para amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar
Foi assim, como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Onda azul, todo azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Foi quando eu mergulhei no azul do mar

Flávio Venturini e Ronaldo Bastos





Imagens: (1) Praia do Forte (2 e 3) Santinho, por Sônia

12 outubro 2009

Prefiro



Prefiro caminhar sem pernas para sentir leveza
meus passos não são certos
mas são intensos e com eles traço
uma linha sem mistérios.

Caminhando desbravei mundos
conheci mares, descobri novas eras
coloquei meus passos em outros passos
explorei fundo o meu espaço.

Me entranhei pelas matas,
pedi água, pedi pousada e fui ficando
fui entrando, bem no coração da floresta..

Pelo caminho carreguei meus sonhos e minha vida inteira
tomei nas mãos um raio de luar, levinho como um pensamento,
abracei um vento que trouxe um gorjeio
que na concha de minha mão pude abrigar.

E agora sou migrante de outros caminhos
uma estrangeira sem ninho.
Mas tenho meus pés livres para continuar
passos incertos, mas verdadeiros e abertos.

Regina Fernandes




As imagens são do Costão do Santinho, por Tom Schmorantz, em 12/10/2009

Poesia para Domingo


Invento luares de agosto
e auroras boreais
invento as noites mais frias
invento as noites mais quentes
invento crisântemos transparentes
guirlandas de silêncios minerais
invento algas cristalinas
cavernas de cristais
invento o que só com amor
se pode inventar
o que já foi dito mil vezes
e que sempre se dirá.

Roseana Murray



Esqueça os dias de nuvens escuras...
Mas louve as horas passadas ao sol.
Hei! Como Santa Teresinha,
esqueça às vezes em que você foi derrotado...
Mas agradeça suas conquistas e vitórias.
Esqueça os erros que já não podem ser corrigidos...
Mas louve as lições que você aprendeu.
Esqueça as infelicidades que você enfrentou...
Mas agradeça quando a felicidade voltou.
Esqueça os dias solitários que você atravessou...
Mas louve pelos sorrisos amáveis que você encontrou...
Esqueça os planos que não deram certo...
Mas agradeça por sempre ter um sonho...
e deixe Deus sonhar com e por você!

Pe. Marcelo Rossi

Boa semana para todos!



Imagem 1: Luar na Lagoa, por Eduardo Poisl
Jmagem 2: Ilha do Mel, por Lee Eilert
Imagem 3: Costão do Santinho por Tom Schmorantz

11 outubro 2009

Eu tenho sempre Gaivotas



Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!
Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!
Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam vôo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a vida...

Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"



10 outubro 2009

Melodia



Não há que negar
Nossas diferenças
Posto que existem
O claro e o escuro
Na mais densa mata
De todos os palcos
Desta melodia
Cujo nome é vida!
Transportada em redes
De luares rentes
Pois que a ti concedem
O clarão da alma
Da mais pura calma
Concebida em noites
De total silêncio
Onde a dor acaba
E o furor transcende
Transpassando a mente
Doce e saborosa
Pois que vicejante
Em tua fala quente
Que atordoa e mente!
Faz-se soberana
Como em ti emana
A presença humana...
Mãos que se entrelaçam
Entregando espaços
Antes tão restritos
A ínfimos laços!

© Márcia Sanchez Luz
[Do livro 'No Verde dos Teus Olhos' - Editora Protexto, PR, 2007]

09 outubro 2009

Viver Poesia


Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

Mário Quintana



Desperta-me leve rumor de asas.
Talvez seja apenas um novo vôo da ave que me habita,
a irromper a madrugada
de onde venho, para ganhar o azul do azul!
E a pássara liberta do fundo do meu corpo-cárcere ao
alçar predestinado vôo,
alcançará o espaço adivinhado para
encharcar-se de vida-luz, sol-amor-nascente.
Sobrevoará a névoa da cidade,
os rios em que deságuo
minhas fontes, irá além dos meus limites verticais,
para encontrar-se, serena ave-ávida,
pousar em outra praia horizontal
e calma, de areias, ventos,
dunas e poesia:
encontro com a face
de minha alma!

Maria Lucia Nascimento Capozzi

Imagem 1: http://www.bedandbreakfastinestespark.com
Imagem 2: Lagoa por Eduardo Poisl
Imagem 3: Ingleses por Sônia

08 outubro 2009

Canção da Plenitude



Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft



07 outubro 2009

Bastam-me



Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor de um navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Natália Correia



Todo o Sentimento



Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

(Chico Buarque e C. Bastos)



06 outubro 2009

No teu olhar com gosto de mar



No teu olhar com gosto de mar
tenho a paz universal
aprisionando-me na essência do amor
que entrelaça nossas almas.

Amor sem pressa,
segue a simetria aleatória
das descobertas, do aprendizado
e desnorteio.

Vive de profundidades e superfícies,
no verbo exato do futuro amplo
com a maneira certa de dizermos juntos
que somos os segundos duradouros
da imutável eternidade.

Conceição Bentes

Publicado no Recanto das Letras em 29/01/09
Código do Texto: T1411708
Imagens de hoje: Barra da Lagoa, Florianópolis



Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.
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