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17 janeiro 2010

Por favor, não me filtrem as nuvens





Por favor não me filtrem as nuvens,
Que eu quero passear à chuva
Atravessar a tempestade cantando!
Por favor não levem
As tempestades para vossas casas!
Deixem-me ao menos louco,
Despido de preconceitos abstractos,
Com meu corpo molhado,
Sem trapos,
A minha face lambida de água pura.
Olhem meus cabelos molhados,
Pingando ao som da chuva.
E esta denúncia de homem…
Encolhida num cacho de uva.
Por favor não me filtrem as nuvens!
Deixem-me agora só com a chuva!
Como um amante febril
Percorrendo de beijos
O ermo da sua loucura,
Como o quente da água pura
Que escorre do meu corpo
Vaporizando liberdade.

Rogério Martins Simões
3/03/1979




O dia de hoje foi de grossas nuvens e muita chuva, mas...ao entardecer, o sol dá novo colorido ao céu. Que tempo....

16 janeiro 2010

Pelo retrovisor



Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário
Letras, lados, lestes
O relógio de pulso pula de uma mão para outra e na verdade nada muda
A criança que me pediu dez centavos é um homem de idade no meu retrovisor
A menina debruçando favores toda suja
É mãe de filhos que não conhece
Vendeu-os por açúcar
Prendas de quermesse
A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele
E nesse tráfego acelero o que posso
Acho que não ultrapasso e quando o faço nem noto
O farol fecha…
Outras flores e carros surgem em meu retrovisor
Retrovisor é passado
É de vez em quando do meu lado
Nunca é na frente
É o segundo mais tarde, próximo, seguinte
É o que passou e muitas vezes ninguém viu
Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu
O que agora só ficou no pensamento
Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento
Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas
Mostra as ruas que escolhi, calçadas e avenidas
Deixa explícito que se vou pra frente
Coisas ficam para trás
A gente só nunca sabe que coisas são essas...

Fernando Anitelli (O Teatro Mágico)




As imagens são para comparar o dia chuvoso deste sábado, com a beleza do sol na quinta-feira. Há comparação?

15 janeiro 2010

A noite é imensa frase



A palavra tece pela cidade
sua ébria caminhada
Sóbrios são os sonhos
nos quais tropeço meus passos
A noite, é imensa frase
de amor a escrever-se
nos becos e bocas
do meu coração cheio de luas.

Jurema Barreto de Souza



Descanso os olhos
sobre as folhas miúdas que tremem
Piscam minhas pálpebras
O vento me envolve
Existo
inacreditavelmente
entre o abrir e fechar
Página folheada
de um livro
vivo.
 
Rosália Milsztajn



Se  conto segredos
daqueles que juram
cruzando os dedos
das asas dadas às brasas
do anjo num boeing
era você que voava
em tetos de berlim
e se inventassem beijos
seriam flamas e magia
que da noite um breu
acendesse feito dia...

Tuti Maioli Neto

14 janeiro 2010

Aqueles que sonham...



...nasceram com deuses e os cultivam em seus jardins.
não se nutrem de uma ciência cega.
suas praias dormem o sono morno das paisagens ao poente.
não sujam suas mãos com sombras falsas.
lêem a leitura das danças honestas.
são eternos aprendizes do amor.
não se assustam da obscuridade das horas inexatas.
não se impacientam com as noites silenciosas e extáticas.
possuem mascaras de luas, sois e estrelas.
não se limitam a horizontes incolores ou a versos sem humanidade.
subemtem-se a desembrulhar emoções matizadas de valores
gastos ou não.
sangram, quando chega tarde demais o amor,
ou, suas raízes não as adubam nunca.
despem-se da petrificação dos dias iguais.

Aqueles que sonham
amam demais e exigem demais
do amor, da vida e da morte.

Oh, aqueles que sonham. . .
são poetas a contradizerem-se.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Vento.
Postado por Madalena Schuck - http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.com/




Conheça também Ilha da Magia>
http://schmorantz.wordpress.com/
Link no Leia ainda...

13 janeiro 2010

Haiti

Hoy no sueño, no sueño, aquí está el sueño
en pequeños ciclones de gargantas;
encerrada la tierra en amuletos;
el trueno detenido en los tambores.

Buscando el cielo oculto de su culto
sube Haití por los pies hasta su grito.
Aquí está el sueño, se me pone grande
un mapa que me ronca y que me asalta;
aquí esta Haití metido en unos dientes,
aquí está Haití que se derrite en ritos,
aquí está, retorcido, de repente,
con golpes de mar seco y de azabache
Haití tiembla en un vientre.

Hoy no sueño, no sueño, aquí está el sueño
sudoroso y espeso, aquí esta el sueño
desnudo y pegajoso y poco ausente,
sueño de objeto oscuro y caso rojo.

Aquí está Haití metido en una hembra:
en una llama negra.

Manuel del Cabral



Que nos digam a onde
Esconderam as flores
Que perfumaram as ruas onde,
Onde se foram ?
Ainda cantamos
Ainda pedimos
Ainda sonhamos
Ainda esperamos...

Mercedes Soza

12 janeiro 2010

Banco de Jardim



Se me perguntarem onde me imagino
Daqui a uns anos,
Se me imagino a mim,
Com pipocas na mão num banco de jardim,
Se me imagino a acreditar
Em alguém que hoje não conheço,
A minha resposta é um rotundo sim.

Porquê? Porque a vida é assim.
É estar sentado num banco de jardim
E sentir a alma longe de mim,
E dizer quase sempre que sim.

Para quê? Para a vida ser assim,
Para apreciar um banco de jardim
E a vida à volta de mim
E dizer sempre que sim.

Sim! Sim! Sim! A vida é assim
Para quem gosta e não gosta de mim,
Para quem se senta ou não num banco de jardim,
Para quem diz ou não diz que sim!

Antônio Carvalho



Legado



Deixarei por herança
não o poema
mas o corpo no poema
aberto aos quatro ventos

Pois todo poema
é verde e maduro,
em areia movediça
de angústia, solidão
Onde me debato
ainda que finja o contrário
em busca da verdade
e seu chão



Deixarei por herança
não o poema
Mas o corpo repartido
na viagem inconclusa

Pois todo o poema maduro
é um verde poema
E, mesmo acabado,
se estriba na inconclusão
Claro, sem esquecer,
o estratagema da paixão.

Maria Luiza Gil

11 janeiro 2010

CANÇÃO EXCÊNTRICA



Ando à procura de espaço...
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida...
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço,
por esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
saudosa do que não faço,
do que faço, arrependida...

Cecília Meireles




Imagens da Costa da Lagoa da Conceição, sábado dia 09 de janeiro de 2010. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

10 janeiro 2010

Poema Eterno



Ouço a tua voz nas folhas do jardim
que ainda existe por detrás da casa,
as tuas frágeis sílabas gravadas nas flores,
que hoje dá na luz inclinada do terraço
onde os pássaros vêm pela manhã poisar
e cantar no estendal para comer...
e eu fico calada na memória das tuas gargalhadas
entre o baloiço onde brincavas e o som das ruas
onde te foste para sempre esconder.
ouço  a sinfonia das gotas de água ao cair da tarde
as nuvens no seu manto negro de anoitecer...
subo então silenciosamente por uma escada feita de cinza e aves
até ao coração da água 
que vem em mim morrer ...
fico ao longe solitária 
seguindo as tuas lágrimas,
as minhas mãos cresceram tanto que saíram para fora da estrada...
agora posso tocar-te e falar-te sem tu veres…
recolher as estrelas que o vento me traga,
e as palavras que procuro 
até adormecer,
enquanto os pássaros vêm aninhar-se no meu colo...

Maria Azenha



Passeio de escuna, imagens da costa da Lagoa da Conceição

09 janeiro 2010

AS DUNAS



Avançam,
sorrateiras,
tangidas pela mão simétrica
do vento.
 
A luz da manhã sobre elas
escorre
como ondas na maré
cheia.
Verdevivos,
os arbustos se agarram
em desespero
à alva memória da areia.
 
Ali,
as dunas espreitam a cidade
— o bote de areia armado —
à espera do tempo.
 
Tácitas,
levam nas costas,
esvoaçante,
o presente;
nos peitos, o passado
semovente.

Adriano Espínola





Imagens das dunas da Lagoa e das imensas pedras na costa da Lagoa da Conceição, clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

08 janeiro 2010

ENTRE PARTIR E FICAR



Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.

Octavio Paz
(Trad Antônio Moura)





As imagens são da manhã do deste dia 08 de janeiro de 2010, durante um passeio de escuna pela Lagoa. Nenhuma foto conseguirá traduzir a beleza desta natureza, mas tentamos!

07 janeiro 2010

Palavras na penumbra





Há um silêncio leve sobre as ruas.
Esconde-se em sua tênue vaidade.
Ninguém o escuta. Vai pela cidade
compondo um vento de palavras nuas.

Foge do tempo, foge dessa urgência
de dizer tanto, e tudo, e não ser nada,
e encolhe-se no oco de uma ausência,
como uma ave oculta a face alada.

Há um silêncio vivo como a pele,
que pulsa sob um têxtil desatino,
disposto a seduzir o que o impele

ao devaneio. E o impulso vence-o
e abre uma outra face em seu destino:
pois dentro do silêncio há outro silêncio.


Renato Tapado
(Porto Alegre 1962, escritor gaúcho, radicado em Florianópolis desde 1974.)



06 janeiro 2010

CAIS



Nenhum cais
Será apenas
De partida ou de chegada...

Há em cada regresso
A mágoa de partir
Cada ida
Tem agrilhoada
A saudade de ficar
Quando anuncias que vais

Sobra sempre um beijo
Desconforto
Quando o lenço branco
Se desdobra
E absorto
Se despede ao vento
E em silêncio
Diz adeus ao sentimento
Quem sabe... até nunca mais!
E morrem no esquecimento
Casas à beira do cais...

João Moutinho




As imagens são de hoje, à caminho do trabalho, Barra da Lagoa e uma visão geral da Lagoa, de quem vai pela rodovia. Clique nas fotos para vê-las em tamanho maior. Para conhecer meu blogger mais recente, confira no endereço:
http://schmorantz.wordpress.com/

05 janeiro 2010

Pedras e Sonhos



Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão - Pedra filosofal

04 janeiro 2010

Tristeza



Pergunta à noite
Pelos segredos,
Pelos teus medos
(Onde estarão?)
Pela fragrância
Das boas horas...
Pelos amores
Que nascerão.
Pergunta à noite
Por ti, por mim,
Se já viu fim
Numa emoção.
Pergunta a ela
Pela poesia
De todo dia
Sermos paixão!
Ela dirá,
Tenho certeza,
Numa tristeza
De escuridão,
Que neste mundo
Nada é eterno
Se após o inverno
Volta o verão.

Genildo Mota Nunes



03 janeiro 2010

Flores



Não quero que a vida
Me pegue na estrada
Qual folha caída,
Perdida no vento.
Nem quero que o tempo
A correr lá fora
Nas asas da tarde
Me faça partir.
Há um desejo estranho
De sonho e de luzes
Nos olhos da face
De quem quer viver.
E a flor despetala
Nas mãos de quem perde
Por força dos fatos
A vez de sorrir.
Por isso é que tento
Compondo meus versos
Ouvir nos espaços
As vozes do ser...
Vagar pelas tardes
E pelos canteiros
No pólen das almas
Que podem sentir.

Genildo Mota Nunes



02 janeiro 2010

A Vida Tem Sempre Razão



Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é por exemplo que dá para entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação
Sei lá, a vida é uma grande ilusão
Sei lá, a vida tem sempre razão.



A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não
Sei lá,  só sei que é preciso paixão
Sei lá,  a vida tem sempre razão

Vinicius de Moraes



As imagens são da Praia dos Ingleses, onde moro, neste sábado à tarde. Um mar muito azul e com águas límpidas e mornas, é um paraíso...

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.
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