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21 novembro 2010

Estava escrito


Estava escrito
que chegarias na voz do vento
como um doce lamento
em busca de sons e de luz...

Trarias nas madrugadas dispersas
o inevitável sentido
nos grãos silábicos do tempo
que teu poema traduz...

Serias a saudade sem sombras,
a madrugada esvaída
o cheiro azul de um remanso
onde a esperança descansa.

Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 21/10/10
Código do Texto: T2570854



18 novembro 2010

Poema em nós


Meu poema não é feito da água dos rios, 
mas das lágrimas que as águas dos rios não levam. 
Tenho um poema de urgências que me reinventa 
à cada margem da vida. 
Tudo em mim é líquido. 
Meu poema é líquido. 
Meus oceanos vazam enquanto nado em desertos. 
Suo e sou a liquidez das manhãs 
transbordando incêndios em silêncios. 
Em mim, celebro um poema. 
Dentro de mim, líquido, mora um poema. 

Adriana Monteiro de Barros 

(jornalista e poetisa carioca contemporânea) 



Imagens do sul da ilha, Florianópolis, SC

16 novembro 2010

Um Poema de Amor





Não sei onde estás, se falas 
ou se apenas olhas o horizonte, 
que pode ser apenas o de uma 
parede de quarto.
Mas sei que 
uma sombra se demora contigo, 
quando me pergunto onde estás: 
uma inquietação que atravessa 
o espaço entre mim e ti, e 
te rouba as certezas de hoje, 
como a mim me dá este poema. 


Nuno Júdice



13 novembro 2010

Poema de Afonso Estebanez



Fica a paz de um canto triste
dos riachos que vão embora,
vem a tarde e o canto insiste
nos meus ouvidos de aurora.

Resta uma chama encostada
numa sombra sem memória,
fica a noite e um quase nada
do que fora a minha história.

Não sou mais aquela infância
debruçada em teus terraços.
Vais!... E deixas a Esperança
desmaiada nos meus braços.

O homem nasce e vira glória
quando é pedra e vira a flor:
Deus então mais comemora
quando é barro e vira amor.

Afonso Estebanez 



10 novembro 2010

Retrato em luar


Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores: 
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos: 
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.

Cecília Meireles



06 novembro 2010

Relativamente


Há hoje um silêncio
que é feito de horizontes.
Minha mente, antes nua,
percebendo preencheu-se
dessa poesia indispensável,
que vive além dos telhados.
Minha alma já sentiu
não haver urgência alguma
para as folhas amarelas
que se desprendem das árvores,
forrando as pedras das ruas.

Adoro esse silêncio...
nele palavras não se vergam,
voam reto em brancas nuvens,...
voltam leves aos meus dedos,
precedidas de altos sonhos.

Ah! Quem dera fosse
também indivisível...
o breve tempo das tardes,
onde todas as frases são versos
nos corpos entrelaçados.

Rita Costa - 30/01/2007, Rio de Janeiro




04 novembro 2010

Poema de Espinheira Filho


Rumina um sonho: gado sonolento
entre as ondas que o vento faz no pasto,
que é vasto como o gesto desse vento
amplo como o horizonte vasto, vasto.

Há deuses nas colinas desse vento
e nas fontes profundas desse pasto
que são, assim, mais verdes e mais vastos
que quaisquer pastos, horizonte, ventos.

Rumina um sonho – e sonhos nesse sonho,
que sonham outros mais. Na tarde amena,
tudo é sonho de deuses e rebanhos.

E ele se deixa navegar, sereno,
nos vastos pastos ventos horizontes
e, denso, de alma toda, escreve um poema.

Ruy Espinheira Filho



02 novembro 2010

Às vezes...


Às vezes me acontece algo assim
Tipo cisco no olho
Sapato apertado
Mal estar na alma
É como um pássaro na gaiola
Um deserto sem água
Um tiro no escuro
Um palhaço sem platéia
Um nó entalado na garganta
Um incômodo visceral
É como se um silêncio profundo
Engolisse meu viver
Mas tudo isso é clichê
E eu páro por aqui...

Lou Witt





31 outubro 2010

Para ti


Foi para ti que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos vivendo
de um só amando de uma só vida.


Mia Couto



AMIGO


No rumo certo do vento,
amigo é nau de se chegar
em lugar azul.
Amigo é esquina
onde o tempo para
e a Terra não gira,
antes paira,
em doçura contínua.
Oceano tramando sal,
mel inventando fruta,
amigo é estrela sempre
no rumo certo do vento,
com todas as metáforas,
luzes, imagens
que sua condição de estrela contém.



Roseana Murray
Poemas de Céu, ed. Paulinas


Imagens Barra da lagoa e Praia Mole

28 outubro 2010

O Vento e a Poesia


Enquanto nas sombras da noite
o pranto cálido e crédulo jazia,
Tocou-me o vento,melodia triste
 na alma pousando-me a poesia!
Rôtas as lembranças, pensamentos
afluiram com a voz do vento
desenhando teu rosto, tão amado.
 Traços de um retrato abstraidos...
O que fazer do brívido da poesia...
 Se escrever-te versos eu não podia e
Então os tecia entre palavras frágeis...
Dedilhei rimas concavas de ternuras
nelas excomungando a minha dor
em sílabas grávidas de amor!


Theca Angel


Imagens da Lagoa da Conceição

24 outubro 2010

Tardes de Primavera


Tardes de primavera morrem devagar,
como vento que balança flores,
num dourado bordado de pétalas
dançando...
Tardes de primavera são mornas,
morrem serenas como deveriam ser
todas as mortes...
Tardes de primavera são pássaros,
voando em direção ao sol
morrem esvoaçantes no horizonte...
Tardes de primavera são doces,
Horas que morrem lentas e douradas,
dispersas no sol poente...
Tardes de primavera são assim,
douradas e serenas mortes
também no coração da gente...

Sônia Schmorantz




23 outubro 2010

Uma Canção


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças...

(Carlos Drummond de Andrade)




Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.
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