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14 fevereiro 2011

Casa Suspeita

Talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito
a parte da tua história mais repleta, plena,
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce,
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena, violenta até,
que o ódio está sempre contido na paixão.
E, se eu tenho uma paz toda que me enfeita
trago uma casa suspeita dentro do coração.

Trago um crime que cometi ou que vou cometer
e jogo contra mim, jogo contra você
vivo do perigo de te fazer enlouquecer
no eterno dilema de ser e não ser,
ando na beira do que pode acontecer
e morro de medo de te perder.


Bruna Lombardi


Imagens da Lagoinha Norte em Florianópolis

13 fevereiro 2011

Cada vez


Cada vez
 que te espreito   
                 na paisagem inebriante
                                      de noites
                                            de fantasmas
                                                         deliciosamente adúlteras
 ternamente
             te acompanho
                    no suplício gostoso
                                 do Carnaval permanente
                                              de nossas vidas orquestradas                              
Cada vez
      Que mergulho
                  No sono de luz
                                     Do calor de tuas artérias de fogo

Escalo pressuroso
                  O porto grande
                         De nossas viagens prateadas
                                                Sempre sem destino.

Jorge Carlos Fonseca 
Dakar, 20 de Novembro de 1976




10 fevereiro 2011

Lavoura Azul


Trabalho nuvens como quem trabalha
o chão que é seu, mas eu não tenho chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.

Sobre o campo de nuvens cresce a palha
de sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.

Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e antiga.

Sou lavrador do quanto não se lavra
e preciso que eu ceife na palavra
o maduro do azul e a sua espiga.


José Chagas, in Lavoura Azul (1974)



08 fevereiro 2011

Em surdina


Calmo, na paz que difunde
a sombra dos altos ramos,
que o nosso amor se aprofunde
neste silêncio em que estamos.

Coração, alma e sentidos
se confundam com estes ais
que exalam, enlanguescidos,
medronheiros pinhais.

Fecha os olhos mansamente
e cruza as mãos sobre o seio.
Do teu coração dolente
afasta qualquer anseio.

Deixemo-nos enlevar
ao embalo desta brisa
que a teus pés, doce, a arrulhar,
a relva crestada frisa.

E quando a noite sombria
dos carvalhos for baixando,
o rouxinol a agonia
da nossa alma irá cantando.


Paul Verlaine


Lagoa do Peri, nesta terça, dia 07/02/2011

04 fevereiro 2011

Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.

Mia Couto


Imagens do trajeto para o Portinho da Costa da Lagoa

01 fevereiro 2011

Diálogo


Levarás 
pela mão o menino 
até ao rio. 
Dir-lhe-ás 
que a água é cega 
e surda. 
Muda, não. 
Que o digam 
os peixes, que em silêncio 
com ela sustentam 
seu diálogo líquido, 
de líquidas 
sílabas 
de submersas 
vogais. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"


Domingo, Praia dos Ingleses

30 janeiro 2011

Fica Decretado...


Fica decretado que,
a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer,
o dia inteiro,
abertas para o verde
onde cresce a esperança.

Thiago de Mello



25 janeiro 2011

Pedaços de Mim


Te ofereci pedaços de mim
você recolheu e transformou em buquê,
te dei sorrisos tristes
você aceitou e transformou em poemas,
te dei joelhos trôpegos
você aceitou e transformou em estrada,
te dei mãos cansadas
você aceitou e transformou em abraços,
te dei beijos desacreditados
você aceitou e transformou em desejos,
te dei receios de sentir
você aceitou e transformou em amor.
Eliana Malpighi



23 janeiro 2011

É preciso remendar as rosas


É preciso remendar as rosas
Que foram rasgadas pela tempestade.
Esquecer o passado, arrancar,
Os sonhos acabados no jardim,
Deixar as dores, as cicatrizes
Tatuar a alma com novos sonhos.
Não evocar os desejos
De um amor proibido, inacabado.
Limiar a vida
Como se nada tivesse existido.
Ser a crisálida,
Sair do claustro,
Não se deixar arrasar pelas dores
De amores perdidos.
Jogá-los ao mar
Sem ressentimento,
Cada poesia tem seu dia,
Cada dor sua época.
Anjos não arrastam
Cipós nas asas,
As flores morrem.
Passou a tempestade,
Outro dia nasce,
Flores nascem depois da chuva
É tempo de …
Limiar


Autor desconhecido

Imagem 1 e 2- Chuvas em Santa Catarina por Cléber Gomes
Imagem 3: chuvas em Santa Catarina por Flávio Neves

18 janeiro 2011

Lira do Pôr do Sol


Volto na tarde sem brisa,
vou pelos túneis do tempo,
para ver se em algum atalho
encontro a manhã da infância,
cheia das rosas de maio,
cheia de andores azuis...

- Nas procissões da Esperança,
eu tinha pássaros na alma
e ramos verdes na mão...
Nossa Senhora da Glória!
ao longo das alamedas
quanta luz havia então!

Volto na tarde sem brisa...
Mas só encontro os presságios
dos nimbos que se aglomeram
da grande noite parada
no chapadão dos novembros...

-Em que atalho do passado,
em que alameda perdida
ficou a manhã da infância,
cheia de rosas de maio
cheia de andores azuis?

Antonieta Borges Alves
In Lírios de Pedra



14 janeiro 2011

Receitas de Roseana Murray


Se pudéssemos plantar palavras,
como se planta uma árvore,
tantos frutos invisíveis
contido sem seu silêncio,
tanta sombra ao meio-dia
em seu futuro,
palavras simples e quentes,
amor, pão, mel, encontro,
as sementes seriam aladas,
e o vento varreria o jardim,
então, pouco a pouco,
atravessando montanhas,
mares, cidades,
a paz cobriria o mundo


(Árvores in Rios da alegria)
Roseana Murray
http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/393809



09 janeiro 2011

Poente


Como sempre, o vento
caiu ao fim da tarde, com a calma
branca dos muros; 

e as horas estendiam-se pelo campo,
como os pássaros do poente.
Mas doíam-me as dúvidas
que trouxe deste dia; 

e colei-as às flores de uma árvore,
para que delas nasçam
os frutos luminosos de amanhã.
De noite, quando me esquecer
da ondulação verde da terra,
ouvirei o silêncio - e nas suas palavras
contarei as sílabas mudas do amor,
enquanto o mundo não acorda.

Nuno Júdice


"Guardo no meu bolso
um raio de sol
.
Hei-de usá-lo
quando vier o Outono
para amadurecer o silêncio
que levará o poema..."


Imagens da Ilha do Mel no Paraná, fotografadas 
pela amiga Lee Eilert

08 janeiro 2011

Somos Rios



Somos rios

somos águas
que extravasam
dores e alegrias.

Somos rios
nas noites nos dias
somos a água e a sede
somos no rio peixe na rede.

Somos rios
que secam lágrimas
somos a boca sedenta.

No rio de outra boca
que nos mata a fome
e a sede lenta.

Antonio Campos 06/01/2011





05 janeiro 2011

VIAGEM NO ESPELHO


Espelho, espelho meu
Diga a verdade
Quem sou eu?
Se às vezes me estilhaço
Se às vezes viro mil
Se quero mudar o mundo
Se quero mudar o rosto
Se tenho sempre na boca
Um gosto de água e de céu
Se às vezes sou tão só
Quando me viro do avesso
Se às vezes anoiteço
Em plena luz do sol
Ou então amanheço
Com vontade de voar
Espelho, espelho meu
Diga a verdade, quem sou eu?

Roseana Murray



03 janeiro 2011

Tua Voz


Tua voz tem o encanto 
de mil borboletas azuis,
traçando bordados no ar.
 Tua voz me fala de coisas
que o vento esqueceu,
segredos de primaveras,
cantigas de ninar sereias,
frases que murmuramos
quando nos faz falta o mar.

Álvaro Bastos




Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.
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