.

.

19 agosto 2009

A dança primordial


De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe do mar nesse lugar
em que poderíamos, ainda, morar no espanto,
nascer de novo e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

Maria João Cantinho
In Sílabas de Água, 2005.

6 comentários:

Adolfo Payés disse...

Danza hermosa en versos..

Bravo.

Saludos fraternos
Un abrazo

Andresa disse...

Como é bom apreciar essa dança
Que encanta....

Um otima dia

Bjs
Andresa Araujo

A.S. disse...

Sónia...

Este belissimo poema... emocionou-me!

Lindooooo.....


Doces beijos!

Nilson Barcelli disse...

Querida amiga, a Maria João foi uma das pessoas responsáveis por eu começar a escrever poesia (até 2005 só escrevia prosa).
O poema que escolheu é magnífico, como aliás tudo o que li até hoje da Maria João.
Um beijo.

Rosemildo Sales Furtado disse...

É um belíssimo poema. Parabéns pela escolha. É sempre bom passar por aquí, pois além de nos deliciar com boa leitura, a gente aprende.

Beijos,

Furtado.

Stella Tavares disse...

Querida Sônia
Deliciei-me em meio a belas imagens e poemas. Deixo com você um poema:
Sã Consciência


Sou uma mulher de meia idade
muito embora ninguém nunca tenha dito
de quantos anos é feita uma idade inteira
Uma mulher que deflora o tempo,
o divide ao meio, transita por suas infinitas passagens
e que aprendeu a extrair o seu poder anestésico e cicatrizante
Manuseio o tempo, mantenho-o em lugar seco, arejado
E o sorvo em forma de Alquimia.

(Extraído do livro “O Adestrador de Sentimentos” de Stella Tavares)

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

.

.