29 Janeiro 2012

Despedidas


Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, 
tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que 
amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'Anna



Imagens da Praia dos Ingleses

21 Janeiro 2012

Poema de Verão


Curvo a cabeça,
Reverenciando o vento
E a folhagem verde,
Como se comigo falasse,
Numa sabedoria natural,
Ao movimento do vento,
Rende-se no calor
Dourado da tarde.
Olhando o horizonte,
Silencio ao tilintar
Do mensageiro do vento;
Natureza viva.
À mesa, lembranças postas,
Como e me alimento
De saudade viva.
Ao redor de tudo, olho,
Reverenciando o tempo,
Os afagos, os silêncios,
Os poemas calados,
A sépia, pelo verão, pintado;
Morna tarde de verão
Que enche de amor, a vida
E pinta de fogo, o Sol,
O coração.



Ednar Andrade

Praia de Coqueiros
Praia do Sambaqui
Imagem 1: Praia do Forte

18 Janeiro 2012

Poças d´água


. . . poesia dançando nos campos da alma
na evocação da presença lagrima
a dormir na prece do vento irrequieto.

. . . murmúrio do amor que se deitou sozinho 
na cama fria da desesperança 
com saudade do abraço que aquece os corpos 
do beijo a sussurrar promessas presença.

. . . procissão de vozes a se fazerem mar verde
de versos que o vento beija sem chorar 
de ilhas virgens a não se deixarem tocar.

Poças d’água
em meus olhos pisados de paisagens alagadas 
inundados de todas as vivências
vivências de meus horizontes tímidos
a repousarem sobre estradas gritantes.


Alvina Nunes Tzovenos
spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.com





11 Janeiro 2012

Medo


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo. 
Que te renovas todo o dia. 
No amor. 
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecília Meireles



04 Janeiro 2012

HOJE


Hoje sou este azul,
sou entardecer, silêncio e magia,
sou do mar a imensidão,
sou da brisa a serenidade,
sou perfume, sou pecado,
sou vida e paixão,
sou luz de luar beijando o mar...

Hoje sou esta natureza,
sou vento que desenha nuvens,
sou a noite e seus pássaros,
voando nas asas do vento...
Sou mulher cheirando a flor,
alguém a quem chamam de poeta,
mas sei que poetisa não sou,
sou mulher desta  natureza,
meus versos são apenas sentimentos
que dançam nas ondas do mar...

Sônia Schmorantz



31 Dezembro 2011

Desejo

 
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.



Victor Hugo



26 Dezembro 2011

SEI...


Sei que sempre ficará

Algo de mim em ti
E algo de ti em mim
Como na tela o amanhecer
Que o pintor imortalizou.
E se ficam vivas nuanças
Das cores que a vida inventou,
Há um mistério que não se diz,
Escondido,
Em qualquer parte desse matiz.
E como nos versos inacabados
Que o poeta renunciou,
Fica essa aquarela,
Atraente e bela,
Pintada com cores do pranto,
Com esse lado, indecifrável,
Que o pintor deixou em branco.



Letícia Thompson


Imagens da Praia do Pântano do Sul, Florianópolis

25 Dezembro 2011

Tuas palavras


Tuas palavras nascem como flores
Vão se esparramando
Criando raízes
Penetrando meu solo
Margaridas
Dálias
Rosas perfumadas
Me enfeitam
Me enlaçam com fitas multicores
Me fazem carícias com a ponta dos dedos
Tuas palavras me transbordam de amor.

Lou Witt


Imagens 1: Lagoa da Conceição; 2 e 3: do Costão do Santinho

23 Dezembro 2011

18 Dezembro 2011

... e Natal é para todos


Natal para os famintos,
Para os desempregados,
Para os sem lar
Para os sem laços,
Para aqueles que Papai Noel nunca existiu, 
que o presente é uma roupa, de pano de guarda chuva, 
que a vida maltrata, que a enxurrada leva tudo.

Natal
Consome-nos a alma
De união de família
Fecha-nos o vidro
Nos sinais fechados


Que desejamos comida,
Emprego, saúde, casa.
Que Papai Noel exista
E venha sempre de saco cheio
Que a vida nos abrace
O amor aconteça
E se faça paz
É porque é natal


E natal é para todos.

Jorge Amancio
Brasília - DF


Imagens da beira-mar Florianópolis

15 Dezembro 2011

Entre flor e nuvem...


Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

Cecília Meireles



12 Dezembro 2011

A tarde...


A tarde é tão serena que parece
vir do hálito que sobe do teu sono.
Vejo-te ir nas nuvens do abandono,
comovido de calma. A tarde desce
ao longe, sobre o mar. Mas lenta e leve,
como a exala o sonho desse sono.
E tudo, enfim, é o sopro do abandono
e o seu sussurrar na mão que escreve.

Dormes como num vôo. Como se fosse
quando o tempo era jovem. E então me sinto
pleno de mar e luz e céu — e sou
claro e soberbo por estar absorto
no abandono desse pó de estrelas
que se juntou para inventar teu corpo


Ruy Espinheira Filho


Imagens da Barra da Lagoa

04 Dezembro 2011

Ensina-me



Ensina-me como aprenderei a contar
As areias da praia
Sem as espalhar
Como juntar as nuvens
Sem as esfarrapar
Como nadar no rio sem me molhar
Ensina-me a amar sem sofrer
A ter sem saber
A compartilhar e receber
A dar e perder
Ensina-me a voar
A ter asas e as merecer
A usar as palavras
Sem as estragar
E sobretudo
Ensina-me a ficar
Aqui a olhar
O vaivém das ondas do mar…

 Piedade Araújo Sol in Ecos



02 Dezembro 2011

Até o amor nos ensinar



Até o amor nos ensinar
dançaremos como quando dança o mar
água que por dançar se deita
sem transparência até lavarmos nossa cara
dentro da imprevista onda derradeira
do mar a água mais clara: a mais funda.
Até que a paixão nos instrua
dançaremos como se dançasse a lua
que enquanto gira sempre oculta a mesma face
até mudarmos nossa roupa
para vestirmos a máscara absoluta
da lua a face mais clara:
a outra.

Jayme Kopke





27 Novembro 2011

Ausência


Nem sempre me sinto ausente,

Que minha alma perene,
Exausta de frustrações,
Exalta do meu corpo e se faz presente,


Não me sinto ausente,

Quando em busca do inconsequente,
Meus truques e artimanhas,
São fantasias em mente.

Me sinto ausente,
Quando em busca do amor verdade,
Encontro amores inexistentes,

Sinto ausente,
Quando sua ausência,
Se faz presente.

Marco Antonio de Alvarenga



22 Novembro 2011

Sem Retorno


Um dia confiei no destino
e atirei ao rio trunfos
que andava a deixar escapar.

O rio é um curso de água livre
(assim me ensinaram na primária)
mas esqueci-me que
quase todos os rios
se vão deslaçar no mar.

E esqueci-me também que o mar
sendo tão cheio de peixes e de água
se torna voraz e muito sedento.

Assim, numa das suas ânsias
engoliu todos os trunfos que lá foram parar
e hoje
só hoje reparei
que nenhum deles ao rio pode voltar.

Marta Vasil
do Blogger: Lua sem Dona


Imagens da Praia do Forte

12 Novembro 2011

Entardecer


Quando o sol cansado vai se pondo,
Uma réstia de sol caminha tranquila
Sobre os montes da ilha.
Declina-se o dia e um vento vago
Traz o cheiro de  jasmins.
Sopram versos das flores,
Como ondas em prece ao entardecer.
Sopros da terra que em flor palpitam,
Exalando a vida e seus perfumes.
Sombras lilases vagueiam no céu,
A tarde declina no silêncio,
Esmaecendo-se suave e melancólica.
Da janela onde me encontro,
Os olhos acompanham as sombras
Desenhando-se nos montes.
Que me importa estar aqui nesta sala,
Onde o trabalho me prende ao chão,
Se minha alma cria asas e se arrebata
Na beleza do cenário, agradecida
Pelo terno abraço desta tarde...

Sônia Schmorantz



10 Novembro 2011

Amor


Há uma luz que brinca
ao final de um corredor,
Há um som de felicidade
acompanhado de saudade,
Há uma nostalgia perene
um sentimento de quase dor,
Há um quê de sentir e querer,
é a isso que chamamos amor?

Sônia Schmorantz