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27 junho 2015

Para isso fomos feitos...


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos: 
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes.



04 junho 2015

Minha essência...


Nasci logo ali, onde as montanhas se agigantam 
enfeitadas de cascatas,
Assim, feito cabeleiras vivas escorrendo nas encostas,
desfazendo-se em riachos límpidos,
preguiçosos, murmurentos!
É sim!
Sou daquelas bandas!
Bem ali, onde os passarinhos bebem pingos de sereno 
na maciez molhada dos cafundós!
Não sei muito!
Aprendi  a filosofia das  pedras,
dos ninhos de curuiras,
do chá de erva santa e da novena dos sete inocentes!
Sei também,  do milho para canjica, da lua boa para semear salsinha
e cachaça na água de banhar criança novinha!
É sim! Tudo  de lá!
Logo ali, onde  flui a essência do meu eu!
(...)
Jossara Bes.





19 maio 2015

Um poema de Tagore...


Quando eu era jovem, a corrente que me arrastava 
corria forte e rápida. 
A brisa da primavera derrotava-se
a si mesma, as árvores ardiam em flores e
os pássaros não dormiam, cantando sem parar.

Naveguei vertiginosamente,
Arrebatado pelo dilúvio da paixão. 
Eu não tinha tempo para ver, sentir ou deixar que
o mundo entrasse em meu ser.

Agora que a maré da juventude
Baixou e eu restei na praia, posso ouvir a
Profunda música de todas as coisas, e o céu
abre para mim o seu coração cheio de estrelas.

Tagore.



Imagem 1: Rafael Farias.

29 abril 2015

Esta tarde...


Esta tarde sou rico porque tenho
um céu todo de prata para mim,
sou o dono também desta emoção
que é saudade igualmente do passado
e uma doce alegria por tê-lo vivido.
Tudo quanto me deixou me pertence
transformado em tristeza, e o que afinal intuo
que não hei de alcançar converteu-se
num grato caudal de conformismo.
Meu patrimônio aumenta a cada instante
com aquilo que vou perdendo, porque quem vive perde,
e perder significa ter tido.
Não tenho já ambições, mas tenho
um projeto ambicioso como nunca tive:
aprender a viver sem ambição,
em paz por fim comigo e com o mundo.

Vicente Gallego.




15 abril 2015

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

Dora Ferreira da Silva.


16 março 2015

Quando chove...


Quando chove – entre nós – é sinal de um milagre 
que se avizinha, diz-se; 
e hoje choveu bastante. 
Cá dentro reverbera o murmúrio da chuva; 
seus traços oblíquos e líquidos, 
o seu falar intermitente. 
É pois o fio da sua úmida caligrafia, 
o redesenhar do destino a cada badalada do seu sino. 
A metamorfose, o renovar, o vivificar; 
é tudo quanto se espera depois da chuva 
preencher o chão com a sua escrita.

Álvaro Taruma.




23 fevereiro 2015

Viver


Viver era para sempre
e o tempo uma coisa
redonda
ondulando feito céu e mar
o tempo não era
perigoso mistério
entranhas de uma caverna
o tempo simplesmente 
não existia
do jeito que existe hoje
latejante urgente
irreversível.

Roseana Murray.




02 fevereiro 2015

É na areia que está o meu carnaval...


É na areia que está o meu carnaval,
é no mar que estão as serpentinas,
brancas ondas a quebrar na praia.
Aqui encontro a magia da poesia,
vestindo fantasia que a luz do sol irradia.

No meu carnaval não tem máscaras!
Tem rostos, tem corpos bronzeados
desfilando naturais alegorias na praia,
que vem do mar, que vem da areia
desfilando como netunos e sereias.

É a palavra que brinca na praia,
no balanço das ondas faz o samba enredo,
o carro abre alas é um navio pirata
assaltando um coração enfeitado
por poesia que na areia virou confete.

sonia schmorantz





04 janeiro 2015

Lembranças...




Carregamos pela vida afora
os cheiros dos encontros raros,
dos acontecimentos,
da nossa primeira casa,
do quintal, se houve quintal,
da mãe na cozinha,
dos sonhos quando acordamos.
Se houvesse uma caixa
para guardá-los, seriam
nosso tesouro.
E então, em dias de saudade,
abriríamos nossa caixa
e mergulharíamos
como num túnel do tempo.

Roseana Murray.


Images de Ademar Rocha.



22 dezembro 2014

Feliz Natal!


Que neste Natal,
eu possa lembrar dos que vivem em guerra,
e fazer por eles uma prece de paz.
Que eu possa lembrar dos que odeiam,
e fazer por eles uma prece de amor.
Que eu possa perdoar a todos que me magoaram,
e fazer por eles uma prece de perdão.
Que eu lembre dos desesperados,
e faça por eles uma prece de esperança.
Que eu esqueça as tristezas do ano que termina,
e faça uma prece de alegria.
Que eu possa acreditar que o mundo ainda pode ser melhor,
e faça por ele uma prece de fé.

(Autor Desconhecido)

10 dezembro 2014

A Vida...

Não temos postado muito, porque depois de uma queda tive meu punho direito quebrado,  Braço direito engessado a quase duas semanas e agora ainda os médicos acham necessário uma cirurgia para colocação de fios, que possam garantir sensibilidade e capacidade de apreensão.
Os amigos tem garantido seu apoio e a minha mão esquerda tem feito muito além do seu papel quando insisto em escrever e a continuar fotografando...é a vida! Mas em algum dia, em algum momento, estarei restabelecida!
Tenham um feliz natal!



A  vida não é, antes de mais, consumir, mas percecionar, sentir, provar e saborear. Não é a quantidade de coisas que eu tomo para mim que decidem se eu vivo realmente, mas o modo como eu perceciono e experimento aquilo que me é oferecido. Tem a ver, sobretudo, com a intensidade da vida. E essa precisa de sossego, serenidade, liberdade, admiração, entrega àquilo que verdadeiramente é importante. 
Anselm Grün.








28 novembro 2014

Balões...




Um dia acordamos e nos damos conta de que viver é tão efêmero. Tudo acontece tão rápido...
É quando constatamos que a chama da vida é uma ampulheta escoando seu fluído de calor e luz para cima, contrariando a gravidade.
A vida é uma estrada de inevitável destino, que reserva a mesma chegada a todos os homens, bons ou maus, não importando o que façam.
Então, talvez o segredo resida na travessia.
Fazer o caminho valer a pena, abandonando os pesos da preocupação, ansiedade, medo e insegurança.
Viver intensamente, nessa perspectiva, é segurar firme o tênue fio que une balões de gás coloridos, aparentemente frágeis, e permitir-se voar no infinito dos sonhos...
Esses balões são das cores que nossos corações souberem pintar.

Moacir Willmondes.



15 novembro 2014

Não achas que chegou a hora?



Não achas que chegou a hora? 
Um dia ainda me dizes que já não há nada, mais nada no lado de fora do tempo. 
Os anos, sabes? Essa maré que nos salva e afoga, que ora nos traz, ora nos leva, o amor ou a dor. Sempre o amor ou a dor… ou um lugar, ou a hipótese de um lugar.
(...) à dádiva de ver para lá e para cá, os navios, o mar, estes pássaros que o sol arrasta. esta luz antiga em que crescemos. 
Que nos escreveu na pele o costume de adormecer e despertar como se as horas chegassem de dentro e morressem ainda mais dentro e isso fosse a marca, a escritura solene que te torna dono do que sempre te pertenceu.

Gil T. Sousa



11 novembro 2014

Amor


Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.

Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.

Czeslaw Milosz.





15 outubro 2014

Daqui a um ano...





Daqui a um ano
podem acontecer muitas coisas:
encontrarmos o amor da nossa vida,
perdê-lo (uma vez mais talvez),
ou descobrir que, apesar de tudo,
não nos fazia assim tanta falta.

Daqui a um ano
hão-de acontecer muitas coisas:
os pesadelos deixarão de o ser de repente,
arranjaremos pesadelos novos,
ou descobriremos que, apesar de tudo,
é o medo nosso (e não os pesadelos).

Daqui a um ano é tanto tempo.

Berna Wang.



27 setembro 2014

Tinha paixão?


Li algures que os gregos antigos...
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
Quando alguém morre também quero saber 
da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música, 
pelo talento de algumas palavras 
para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios 
com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
E então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente, 
que paixão?

Herberto Helder.




12 setembro 2014

Das coisas que não existem...


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
lugares que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...

Manuel Antônio Pina.




24 agosto 2014

Sou...



Sou a que
Encalhou exausta em ilhas inóspitas
E aportou sem ancora a portos sem fundo
Sou eu
A que enfrentou as ondas
E trovões e ventos
E habitou castelos de cristal e luz
Que ruíram sempre em nuvens de nada
E se foram enredando em círculos de fogo
Como se os deuses estivessem atentos
Aos secretos mundos
Em que não vivi...

Graça Maria Antunes.






Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

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