.

.

14 abril 2014

Porque o amor...


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado.     
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.)
Estou onde sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade

Baía sul Florianópolis por Heverson Santos

Imagem de Frank Navarro

05 abril 2014

Uma coisa amarela...


Uma coisa amarela,
é isso o que eu quero.
Quem sabe a lua nova,
quem sabe um dia manso.
Talvez um galho de sol
sobre um rio cansado.
Uma coisa amarela,
eu quero, porque quero.
Talvez, cheiro de outono,
quem sabe, um pedaço
de vento, folha, areia,
coisa que vem de dentro.
Qualquer coisa, eu quero.
Da cor que regenera. 


Silvana Guimarães.





29 março 2014

Um dia...


Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

Rosa Lobato de Faria.



22 março 2014

Para conhecer uma mulher....



Para realmente conhecer uma mulher 
conheça seus sonhos
Pergunte dos seus medos e dos seus desejos.
Decifre seus olhares e 
preste atenção nos detalhes...
Porque a mulher quer ser descoberta e 
ela lhe mostrará o caminho.
Toda mulher é uma casa secreta 
cheia de portas e janelas
Esconde passados e em cada quarto 
esconde um mundo novo.
Cada poro tem seu aroma e 
em cada curva a cor é diferente.
Para conhecer uma mulher precisa saber 
onde a carne é mais branca
Se quando ela caminha os cabelos balança,
saber como pisa, como ri e como chora.
Saber em que horas acorda, 
de que jeito dorme.
Uma mulher é feita de mistérios, 
sem isso não seria mulher.
Esconde os defeitos, esconde as fraquezas, 
esconde como dança.
Depois ela surpreende, ela dança, ela encanta.
Ela mostra sua força, seu sexo, seu amor.
Ela se abre para o homem que a descobre
E segue com ele por onde ele for.

Carolina Salcides.


18 março 2014

Por vezes...


Por vezes cada objeto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo.


António Ramos Rosa




11 março 2014

Tudo que eu precisava na vida, aprendi no Jardim de Infância...



Grande parte do que eu realmente preciso saber sobre a vida, o que fazer, como ser, eu aprendi no jardim da infância. Não foi na universidade nem na pós-graduação que eu encontrei a verdadeira sabedoria, e sim no recreio do jardim da infância. 
Foi exatamente isto que aprendi: 
Compartilhar tudo, brincar dentro das regras, não bater nos outros,

colocar as coisas de volta no lugar onde as encontrei,
limpar a própria sujeira, não pegar o que não era meu, 
pedir desculpas quando machucava alguém,
lavar as mãos antes de comer, 
puxar a descarga do banheiro. 
Também descobri que café com leite é gostoso, 
que uma vida equilibrada é saudável e que pensar um pouco, 
aprender um pouco, desenhar, pintar, dançar, planejar e 
trabalhar um pouco todos os dias, nos faz muito bem. 
Tirar uma soneca todas as tardes, 
tomar muito cuidado com o trânsito, 
segurar as mãos de alguém e ficar juntos, 
são boas formas de enfrentar o mundo. 
Prestar atenção em todas as maravilhas e lembrar da pequena semente que, um dia, plantamos em um copo de plástico. As raízes iam para baixo e as folhas iam para cima mas ninguém realmente sabia nem porquê. 
Mas nós somos assim! Peixinhos dourados, hamsters e ratinhos brancos; e até mesmo a pequena semente do copo de plástico, tudo morre um dia. 

E nós também. 
(...)
Robert Fulghum.


05 março 2014

Um blog...



Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não 
pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.
É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mônada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.
Nunca adiamos a solidão!

Luís Filipe Castro Mendes



25 fevereiro 2014

Por querer bem






Por querer bem, escrevi e apaguei.
De tanto querer, fingi e acreditei.
Assim são os afetos, a solidão e as noites.

Por esperar tanto, considerei e esqueci.
De tanto procrastinar, me iludi e aventurei.
Assim foram os dias, tardes e horas.

De tanto deixar pra lá, passou e nem vi.
Por conformação apenas consenti.
Assim era e foi aquele dia, quando passou por aqui.

Catia Netto


10 fevereiro 2014

Eu vi os anos passarem...



Eu vi os anos passarem
Primaveras mudarem de cor
Vi o pintor brincar com a arte
Na tela da face que mudou.

Eu vi o sol abrir o céu
Vergel em nuvens brancas
Vi os barcos de papel
Remarem minha criança.

Eu vi tantas vistas
Tantas pistas de esperança
Vi artimanhas embutidas
Num canto da lembrança.

Eu vi a dança do vento 
No tempo que passou
E o que restou dos momentos
Que a vida expirou.

Eu vi o tempo esvair
Ao perseguir os sonhos
Vi o tamanho do porvir
E seguir os anos.

E assim passará o tempo
Levando os momentos e me deixando 
Ficando eu, sigo vivendo 
E a vida me espiando.

Ivone Alves Sol.


01 fevereiro 2014

Tristeza não...



Tristeza
Não condiz
Com o dia:
Não posso denegrir
O quadro
Que sol
Passarinhos
E flores
Pintaram.

Zélia Guardiano.



24 janeiro 2014

Pássaro solitário


Pássaro solitário,
como é difícil abranger-te !
Nem sei como defender-te,
incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
visitas todas as terras,
e te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere…



Dantas Mota



12 janeiro 2014

Revolução contida...



Guardo dentro do peito
uma revolução contida
Vontade reprimida
de romper o sistema
viver do próprio lema
de só falhar pelo exagero
e viver cada dia
com muito mais emoção.
E guardo aqui no peito
uma coragem infinda
de enfrentar os mais temidos
Pichar ideais em muro
fazer visível o que há de errado
Nesses valores em inversão.
Mas fica tão bem guardado
que quando procuro não acho
e toda minha valentia
se perde em imaginação.

Fernanda Sabrina Siqueira Campos.


05 janeiro 2014

Aprendemos


Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.

Jorge Luís Borges


01 janeiro 2014

Vinde...


Vinde. 
Vamos tocar janeiro,
 vamos por fevereiro e março e abril e maio, 
e tudo que vier; 
durante o ano a gente o esquece, e se esquece; 
é menos mal. 
E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, 
às vezes dá uma aragem. 
Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. 
E quem diz é quem já pegou muito no sol nos desertos 
e muito mormaço nas charnecas da existência. 
Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. 
E se não tiver, refleti que 
no fim todos passam e tudo passa; 

o fim é um grande sossego e um imenso perdão.

Rubem Braga



28 dezembro 2013

Feliz Ano Novo a todos os amigos!



Não há vida sem volta
e não há volta sem vida
no ciclo da natureza
neste ir e vir constante
No broto que se renova
na vida que segue adiante
em quem semeia bondade
em quem ajuda o irmão
colhendo felicidade
cumprindo a sua missão.
Todo dia é ano novo...portanto...feliz ano novo todo dia!



Autor desconhecido

Florianópolis por Ricardo Ribas

25 dezembro 2013


Todo dia é ano novo
Entre a lua e as estrelas
num sorriso de criança
no canto dos passarinhos
num olhar, numa esperança...
Todo dia é ano novo
na harmonia das cores
na natureza esquecida
na fresca aragem da brisa
na própria essência da vida.
Todo dia é ano novo
no regato cristalino
pequeno servo do mar
nas ondas lavando as praias
na clara luz do luar...



Autor desconhecido




16 dezembro 2013

Tu.do podia ser mais simples


Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direção das nascentes.
Apesar da sede.


Graça Pires

Imagens de Elena Shumilova.

08 dezembro 2013

Feliz domingo...



Algumas vezes é imprescindível ficarmos um tempo a sós.
Lermos e relermos os mesmos capítulos até compreendermos
que histórias têm princípio, meio e fim.
E depois voltarmos aos mesmos campos de lavanda
onde outrora nutriu a doce seiva...
Pisarmos na terra sem mágoa ou dor.
Compreendermos que o solo não fenece,
e que os perfumes de outrora
ainda se encontram embebidos na relva
aguardando novas chuvas.

Arnalda Rabelo





Pertenço àquela parcela da humanidade que passa 
a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, 
um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, uma de cada vez ... 
um mundo talvez muito rico.

Ítalo Calvino.


03 dezembro 2013

Coaxar dos sapos



Coaxar dos sapos, quando a noite é calma,
sem jardins simbolistas, nem repuxos cantantes,
nem rosas místicas na sombra, 
nem dor em verso...
Coaxar dos sapos, longamente,
quando o céu palpita na moldura da janela,
num mistério doce, 
num mistério infinito,
e em cada estrela há um lábio, 
umlábio puro que treme,
e um segredo na luz 
que palpita, palpita...

Augusto Meyer, 
em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo, 1926.


Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

Arquivo do blog