.

.

15 julho 2014

Falo da natureza


Falo da natureza 
E nas minhas palavras vou sentindo 
A dureza das pedras, 
A frescura das fontes 
O perfume das flores 
Digo, e tenho na voz 
O mistério das coisas nomeadas. 
Nem preciso de as ver 
Tanto as olhei, 
Interroguei, 
Analisei 
E referi, outrora, 
Que nos próprios sinais com que as marquei 
As reconheço, agora. 

Miguel Torga.






28 junho 2014

Noite


Acordamos com a franja da noite
a deixar entrever restos de sonhos.
Imagens incoerentes, tempos vivos
de mortos, absurdas torres, e a fala
mil vezes repetida, alucinada,
em demanda de abrigo, num limiar
de opala.


Na alegria e na tristeza, restos de sonhos
alimentam a poeira da casa, da estrada,
incandescente às vezes, branca, fria,
quando a noite volta e se derrama.


Licínia Quitério.



16 junho 2014

Há coisas...


(...)
Há coisas da gente que a gente sufoca,
No exato gesto de tapar a boca;
Escondemos as mãos e fechamos o riso,
E só nos abrimos se não for preciso.

Prometo a mim próprio andar à altura
Dos ventos e velas por onde me meço.
Sou grande devoto da coisa loucura,
Por ser o que sou         
pecador me confesso.

Saí dos limites do tempo.
Sonhei que não estava acordado.
Cantei contra tudo o que é lento,
Dancei com a esperança ao meu lado.

Dancei que parecia mentira.
Cantei que parecia verdade.
Sonhei o melhor que sabia.
Saí para lá da vontade.
....sonhei.


Fernando Tordo.



31 maio 2014

Pensamento à toa...


O pensamento à-toa
Que se perde no espaço.
E
além, sem deixar traço
De si, o olhar que voa.

Um invisível fio.
O equilíbrio de uma ave
Na vertigem suave
Do voo no vazio.

Sob a aparente calma,
Esta inquieta, esta aflita
Vacuidade infinita
Para o respiro da alma...


Dante Milano 



24 maio 2014

É sempre bom ler Vinicius...



Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envelhecida


Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes.


13 maio 2014

Parte...


Parte, e tu verás 
Como as coisas que eram, não são mais 

E o amor dos que te esperam 
Parece ter ficado para trás 
E tudo o que te deram 
Se desfaz. 



Parte, e tu verás 
Como se quedam mudos os que ficam 
Como se petrificam 
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais 
E como momentos que passaram apenas 
Perecem tempos imemoriais. 



Parte, e tu verás 
Como o que era real, resta impreciso 
Como é preciso ir por onde vais 
Com razão, sem razão, como é preciso 
Que andes por onde estás. 

(...)

Vinicius de Moraes.




04 maio 2014

É um soneto...




É como um soneto que não sai.
É como se não brotasse a semente.
É como se houvesse em minha mente
Um verso pendurado que não cai.

Triste, penso em tudo que me sai
Antes mesmo de me ser equivalente.
É feito uma alegria de aguardente
Que vem rápido e rápido se vai.

Tudo que busquei com tanta ansiedade
Se partiu, me abandonou sem piedade
E a vida hoje me trata com desdém.

Aprendi, contrariado, a verdade,
E hoje sei que essa tal felicidade
É com um soneto que não vem.

Danilo del Monte.
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2010



29 abril 2014

Talvez...




Talvez em outras histórias
Eu tenha sido uma canção consumida
Na voz que me foi oferecida
Ou na emoção que foi sentida.
No caminho nebuloso
Fui o sol da tua alma
Que festejou tua chegada
Numa iluminada melodia.
Se fui caminho de luz
Ocultei a essência da minha dor,
Do meu silêncio declarei paixão
No pensamento, a criação
No canto,
Uma oração!

Conceição Bentes


17 abril 2014

Hoje...


Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.
Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?
Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então eu me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?
No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém.


Marly de Oliveira


Feliz Páscoa!


14 abril 2014

Porque o amor...


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado.     
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.)
Estou onde sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade

Baía sul Florianópolis por Heverson Santos

Imagem de Frank Navarro

Quem sou eu

Minha foto
Gaúcha, nos pampas nascida Um grande sonho acalentei Morar numa ilha encantada Cheia de bruxas e fadas. Nessa terra cheia de graça Onde se juntam todas as raças, Minha ilha lança ao poente O azul espelhado da lagoa, O verde silêncio das montanhas, O rumorejar de um mar azul Que beija apaixonado a areia da Minha ilha de renda poética. Não importa se há sol ou chuva, A mágica ilha é sempre azul, Fica gravada na alma e Quem aqui vem sempre vai voltar, Para descobrir novos caminhos, Novos destinos, pois Esta magia nunca irá acabar.

Arquivo do blog