31 Janeiro 2009

O poema no tempo


Emerge da noite e do silêncio o poema,
Habitante da essência dos meus sentimentos.

O poema que me levará no tempo
E passarei entre as mãos
E diante dos olhos livres e límpidos de quem lê.

Sua passagem se confundirá
Com os assovios do vento
Com o rumor dos oceanos.
Ele encontrará uma praia de areias claras
Aonde possa se estender ao sol.

O poema morará inteiro no espaço mais aberto
De ar claro nas tardes lisas e eternas.

Quando eu já não existir mais,
O poema de asas brancas no vôo que lhe coube
Irá pousar em alguém que se fundirá a ele,
Entre paredes densas,
Quando na profunda e devoradora solidão.

Então ele emergirá, mais uma vez,
Da noite, do silêncio, como um cais seguro,
Ou quem sabe
Uma mão aberta e na palma uma esperança.

Antonio Miranda Fernandes

30 Janeiro 2009


Na oscilação imprecisa das águas da memória
Se fundem numa só verdade todas as lembranças.
Ao fundo do mar e de mim, as memórias
Navegam barcos sob um céu azul,
Deslizando imprecisos, vagarosamente.
O barco se detém no remanso da água,
Corre-me água das mãos molhadas de mar, e
Uma ave pousa calada na proa...
Barco e rio são agora minha própria dimensão.
Memórias, barcos fazem parte da paisagem,
Da minha paisagem humana...

Sônia Schmorantz

Sei que sempre ficará
Algo de mim em ti
E algo de ti em mim
Como na tela o amanhecer
Que o pintor imortalizou.
E se ficam vivas nuanças
Das cores que a vida inventou,
Há um mistério que não se diz,
Escondido,
Em qualquer parte desse matiz.
E como nos versos inacabados
Que o poeta renunciou,
Fica essa aquarela,
Atraente e bela,
Pintada com cores do pranto,
Com esse lado, indecifrável,
Que o pintor deixou em branco.

Letícia Thompson

29 Janeiro 2009


Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...

Guilherme de Almeida

28 Janeiro 2009


Na poética mansidão da madrugada
Sonhos se refugiam na inquietação da alma.
A lua, farol iluminado ao longe
Hoje é quem me faz companhia.

A olhar as estrelas por entre nuvens.
Uma lágrima cai, mas não podem vê-la
Porque é da alma que sai...

Há noites assim,
Em que os corpos não se pedem,
São noites brandas de desejo,
Mãos que repousam em palavras de paz.

A cada noite numa folha branca
Os versos pedem para nascer na
Mansa inquietação com que me cubro
Nos dias em que não estás...

Sônia

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

Tasso da Silveira
Imagem: Maria Branco-http://olhares.aeiou.pt/sozinho_foto730538.html

Quando uma nuvem nômade destila
gotas, roçando a crista azul da serra,
umas brincam na relva; outras, tranqüila,
serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
de folha em folha e, trêmula, cintila,
mas nem se lembra da que o solo encerra,
da que ficou no coração da argila!

Quanta gente, que zomba do desgosto
mudo, da angústia que não molha o rosto
e que não tomba, em gotas, pelo chão,

havia de chorar, se adivinhasse
que há lágrimas que correm pela face
e outras que rolam pelo coração!

Guilherme de Almeida

27 Janeiro 2009


Há muito tempo, Vida, prometeste
trazer ao meu caminho uma doida alegria
feita de espírito e de chama,
uma alegria transbordante, assim como esse
alvo clarão que se irradia
da orla festiva das enseadas,
e entre reflexos de ouro se derrama
do cântaro das madrugadas.

Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!...

A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.

Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.

Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto...
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão...
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!

Henriqueta Lisboa

26 Janeiro 2009


Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d’asas para sempre,
se cada som de flauta,
sussurro de samambaia, mover,
sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte...
Os grilos devorados não fossem,
no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne
e triste a nossa vida corporal,
faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar,
imóvel, alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.

Alberto da Costa e Silva

25 Janeiro 2009

Tecer Sonhos


Se tenho um fio de esperança, um sonho teço,
para abrigar o sofrimento da saudade;
tantas laçadas - já nem sei fim ou começo,
qual se o agora fosse a própria eternidade.

Em cada malha de ilusão sutil, me aqueço,
talvez se acalme esse tormento que me invade;
ponto por ponto, pago sempre um alto preço,
meu fado é rude, sem mercê, sem caridade.

Hora após hora, passa o tempo, vai-se o dia,
a noite agita mil lembranças, me agonia...
Verso e reverso a tricotar, não esmoreço.

Então, de um fio de esperança... Um sonho teço!
No aqui, no agora, ou bem além do que se vê,
em cada ponto estou mais perto de você.


Patricia Neme

Não sei mais onde ficou impressa
a minha forma,
nas areias da praia,
porque o vento da noite
ocultou nosso segredo.
Sei apenas
que ficou em mim
aquela paz enluarada
que havia sobre tua cabeça
quando abri os olhos.

Augusta Campos

23 Janeiro 2009


Eu sabia que um dia ela viria,
Íntima de mim a cada instante,
Embora oculta em todas minhas mortes.
O silêncio outra vez presente.
Tentei falar mas não consegui.
Dos meus olhos tão perto,
Tão distante do coração
Não sei onde ficas
Viajando por entre a solidão.
Não mais juntos:
Mas em paralelo,
Tão substancialmente sós na apertada solidão,
Que nesse silêncio se escuta a respiração de Deus.
Na nossa rota não há dois astros
Apenas nós e a cósmica solidão
Do nosso próprio infinito...

Sônia Schmorantz

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

Cecília Meirelles

Uma noite em que eu respirava o perfume das flores
à beira do rio,
o vento trouxe-me a canção de uma flauta distante.
Para responder-lhe, cortei um ramo de salgueiro
e a canção da minha flauta embalou a noite encantada.

Desde então, todos os dias,
à hora em que o campo adormece,
os pássaros ouvem a conversa
de dois pássaros desconhecidos,
cuja linguagem, no entanto, compreendem.

Li Po, poeta chinês (701-762 d.C.)
Do livro "Poemas Chineses"
Editora Nova Fronteira, 1996
Tradução para o português: Cecília Meireles

22 Janeiro 2009


Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

Cecília Meireles

http://ilhadamagiasoniasch.spaces.live.com/

21 Janeiro 2009


É o luar que me inventa
nesta varanda de prata.
Faz bem pouco, havia apenas
silêncio, e uma alma escassa.

É do luar este conto
solto na espuma do ar,
e que me conta, me sonha
contra ruínas.É o luar

em seu tear me tecendo,
soprando-me uma alma vasta
e as velas desta varanda
em águas iluminadas

por sua lira que respira
este conto - enquanto tarda,
na sombra, a princesa fria
que há de vir me beijar.

Rui Espinheira Filho

Modinha


Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixei-as,
Junto com as minhas cantigas,
Desenhadas nas areias.
Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!
O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.

Cecilia Meireles
Poetisa brasileira

Definições


Sou fria e quase muda,
Quando quero ser terna,
Quando quero ser tua.

Sou pedra lisa e dura,
Que jamais canta
E que não se mostra viva,
Jamais.
Sou raiz que adentra pela terra,
Sou poeira que desaparece no ar.
Sou, quem sabe, o brilho na fresta da janela,
Que parece corpóreo,
Quando brilha o luar.

Sou água que evapora,
Sou nuvem que deságua,
Sou o sal que salga a água,
Sou a lágrima salgada
Que rolou do teu olhar...

Roseli Silveira
Primeira antologia dos poetas internautas,
Editora Blocos, 1997 - Rio de Janeiro, Brasil

20 Janeiro 2009


Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...

Isabel Machado
Poetisa brasileira

Entre o luar e a praia
tua medida exata

e em meu céu desmaia
outra ilusão de prata;

sempre o amor me atraia
no azul da serenata:

-serás a antiga praia,
serei o luar de prata.


Colombo de Sousa

19 Janeiro 2009


É do ocaso que te quero falar:
Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

Verás o tempo estagnar
no intangível esbater da cor.
Os cinzas e os cobres em que repousam
os verdes e os azuis.

Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo,
meu amor.

http://poemasmanuelfilipe.blogspot.com/

18 Janeiro 2009


Senta-te ao lado do meu silêncio.
Não me abraça agora, mas
Escuta as ondas e o meu silêncio...

Senta-te comigo,
Sente o cheiro da maresia e olha
Mar e céu fundidos nesse intenso azul.
Deixe que eu respire o perfume do mar
Pressentindo o calor da tua pele
Sem ainda te tocar...

Deixa que eu perceba o bater do teu coração
Misturando-se ao vai e vem das ondas...
Deixa-me voar em pensamentos
Sem tirar os olhos do mar,
Espera o vento cálido chegar
Para então dizer que me ama...

Ate lá me deixa ficar só assim,
Sentindo a tua presença e o mar
Depois falaremos de amor e mais nada....

Sônia Schmorantz

Sorriso


Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro,
apetecia entrar nele,
tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, nadar,
morrer naquele sorriso.

Green God

A vida é um incêndio:
nela dançamos,
salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

Mário Quintana
Poeta Brasileiro

17 Janeiro 2009


A tarde é tão serena que parece
vir do hálito que sobe do teu sono.
Vejo-te ir nas nuvens do abandono,
comovido de calma. A tarde desce

ao longe, sobre o mar. Mas lenta e leve,
como a exala o sonho desse sono.
E tudo, enfim, é o sopro do abandono
e o seu sussurrar na mão que escreve.

Dormes como num vôo. Como se fosse
quando o tempo era jovem. E então me sinto
pleno de mar e luz e céu — e sou

claro e soberbo por estar absorto
no abandono desse pó de estrelas
que se juntou para inventar teu corpo

RUY ESPINHEIRA FILHO
Poetas Brasileiros
Imagem: Praiaa do Moçambique - Florianópolis

16 Janeiro 2009


Sonhei tanto contigo,
Caminhei tanto, falei tanto
Amei tanto a tua sombra,
Que já nada me resta de ti.
Resta-me ser sombra entre as sombras
Ser cem vezes mais sombra que a sombra
Ser a sombra que há de vir e voltar
Na tua vida cheia de sol.

Robert Desnos
Imagem: Lagoinha Leste - Florianópolis

E então ficamos os dois em silêncio, tão
quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois
caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude
tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer, depois que as
próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

J.G. de Araujo Jorge

15 Janeiro 2009


Ensina-me como aprenderei a contar
As areias da praia
Sem as espalhar
Como juntar as nuvens
Sem as esfarrapar
Como nadar no rio sem me molhar
Ensina-me a amar sem sofrer
A ter sem saber
A compartilhar e receber
A dar e perder
Ensina-me a voar
A ter asas e as merecer
A usar as palavras
Sem as estragar
E sobretudo
Ensina-me a ficar
Aqui a olhar
O vaivém das ondas do mar…

Poema de Piedade Araújo Sol in Ecos

Sou tantas que quase
me perco entre os monstros
e fadas que habitam
os sonhos de mim

mas ainda reconheço
minha menina saltitante
quando recolho
os estilhaços coloridos
que a madrugada espalhou
e me refaço
pra dar bom dia ao mundo
outra vez

(isabella benicio)

14 Janeiro 2009


Quero
uma casa sem portas,
Um espaço sem vento!
Um amor com amor!

Quero,
Um rumor de água
por perto,
iluminando o teu corpo
aberto como um barco.

Quero
um cais ou um porto
onde as gaivotas se percam
e as andorinhas
secretamente nos avisem
que a Primavera chegou.


(luiza caetano)

De tudo aquilo restou-me um esquecimento
como um perfume transparente e vago.
E assim posso dizer que o respiro
como a um perfume.

De tudo aquilo restou-me um vazio
como um verso, de súbito, esquecido.
E assim talvez de repente o recorde
como a uns versos.

De tudo aquilo restou-me uma lua
secreta, lentamente evaporada.
E assim é possível que uma tarde volte
como a lua.

De tudo aquilo restam-me sonhos,
sonhos,sonhos, que o tempo esfuma
E já não sei se aquilo foi sequer
como os sonhos.

Eduardo Carranza

13 Janeiro 2009



Aqui cheguei, aos limites
onde não é preciso falar,
tudo se aprende com o tempo e o oceano,
a lua aparecia
com as suas linhas prateadas
e aos poucos desfazia-se a sombra
com um golpe de onda
e na varanda do mar o dia
abre as asas, nasce o fogo
e tudo continuará azul como amanhã.

Pablo Neruda

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade

12 Janeiro 2009


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

11 Janeiro 2009

Até o amor nos ensinar...


Até o amor nos ensinar
dançaremos como quando dança o mar
água que por dançar se deita
sem transparência até lavarmos nossa cara
dentro da imprevista onda derradeira
do mar a água mais clara: a mais funda.
Até que a paixão nos instrua
dançaremos como se dançasse a lua
que enquanto gira sempre oculta a mesma face
até mudarmos nossa roupa
para vestirmos a máscara absoluta
da lua a face mais clara:
a outra.

Jayme Kopke

A princípio uma, duas, uma dezena, uma linha
interrompida pairava escorregadia pelas águas.
gaivotas julguei eu que na noite tinha gritado
ou sonhado, deixem-me ir convosco,
mas elas estavam ali atracadas no silêncio do cais.
as outras, apenas aves, das que vão e
vêm quando é tempo de ir e vir.
e vinham para logo irem, muitas, quais fiapos jorrando
cada vez mais e mais, voando com o olhar
já na foz, tal como aquela correnteza imperceptível
da água. já não era um bando, era um pano
de aves escuras em contraluz, deslizando
entre dois panos cerúleos,
juntando-se lá longe como uma só
asa dançando evocante.
e em revolto véu romperam o horizonte.
no cais em silêncio, eu e as gaivotas.

http://lugarefemero.blogspot.com

Dançam, rodopiam, levitam
Teus olhos –
Pequenas bailarinas de pés feiosos –
Pelo pôr de sol avermelhado.

A tarde teria que ser assim,
Calma, com a brisa lúdica invadindo a alma.

Gaivotas sobrevoam um mar negro
Carregando, vez por outra,
Um peixe brigador.

As palavras,
Você as disse de forma a combinar
Com o cenário.

Foi um adeus como todos os outros,
Mas carregava tua poesia.


http://mimesisoutrem.blogspot.com

10 Janeiro 2009



Puro espírito do êxtase e do vento
Que no silêncio da planície danças
Eu não quero tocar teu corpo de água

Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.

(Sophia de Mello B. Andresen)
Imagem de Luiz Quinta

Sonhamos voar azul dos pássaros
uma grinalda branca para enfeitar um rosto de mulher,
um cavalo de sangue lusitano no coração dum réptil.
De tempos a tempos desenterramos um diamante
dentro duma ostra
(que nunca nos pertence),
mas resistimos,
porque as águas caiem escorrendo sobre a fronte
porque a cidade se estende no interior
das árvores
porque as árvores se justificam na solidão dos ares.

Vieira Calado

09 Janeiro 2009



Para que a minha vida fosse melhor
pedi um pouco da tua luz
um pequeno gesto pousado

e deixei-me cair no teu coração
sem braços sem corpo sem nada
apenas a minha alma

e depois deitei-me a teu lado
como fazem os pássaros
quando morrem.

e ficaram rosas...

http://aluzdovoo.blogspot.com

Chegarás sempre na última palavra
na tarde noturna do desejo
onde a paixão se recolhe
e deposita até os fantasmas
febris do desespero
Chegarás na bruma
das sílabas sonoras do amor
o ar sonando no sonho
como uma nuvem que se perdeu
e fica boiando no horizonte
Chegarás como a sombra
quente do sol
esquecida no adeus
Chegarás para dizer
que o amor revela-se
à luz noturna das palavras.

Luiz de Miranda

08 Janeiro 2009


No fundo dos meus olhos,
quando eu não puder reconhecer
o brilho de outros sonhos
ou mesmo quando o riso
não trouxer ternuras e esperanças,
ainda há de restar a sedução do verbo,
aquele que me toma a alma em sobressalto,
aquele que arrebenta algemas do passado,
que estilhaça o painel da realidade
e me oferece
a taça inebriante do apenas imaginado ...
No fundo do meu peito,
quando o coração quiser calar
todas as vozes que me encantam,
emudecer canções que me acalentam,
silenciar acordes que me embalam,
ainda hei de escutar
uma orquestra de estrelas cristalinas,
miríades de graças ,luzes, cores, vidas,
pois onde a poesia está,
ali, eu vivo ...

Alphonsus Guimaraes

Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.

Lya Luft
Imagem: Lagoinha Leste Florianópolis

Direi aos pássaros que quedem
Seu esvoaçar
Ao mar que aconchegue as marés
Sobre o regaço da areia
Á noite que acenda
Nas pontas dos seus dedos
O brilho da emoção
Ás pedras que calem as passadas
Para que sinta o cetim da inspiração
Vestirei minha alma
De silêncios
Desfolharei cada palavra
Enquanto o vento encosta sua boca
Ao meu rosto
Deixando sobre este manto de azul
Tudo o que sinto
No tracejar deste espaço
Feito de migalhas da Alma.

E.Vieira

Escrevi ao mar palavras da minha verdade
Conversa minha ao azul da tua ilusão
Falei de ti as melhores frases de saudade
Que a praia conhece da nossa paixão.

Falei dos meus amores e lindas cinderelas
Junto á beira das ondas do meu anseio
Prometi deixar amizade em rosas amarelas.
E de estar contigo como quem sonha um passeio.

De mãos dadas nas rochas que se quer ver
Pisando em sonho a fina areia de praia salgada
Molhando os passos de amor que quer viver
Se lhe deixo amarelas, fica outra encarnada.

http://osaldanossapele.blog.simplesnet.pt/archive/2007_07.html

07 Janeiro 2009

Quarenta e tantos...


Fica comigo para contar estrelas
Para caminhar na chuva pela rua
Quero vagar contigo pela praia
Poder molhar os pés a beira mar

Vamos dormir juntinhos numa rede
Dar beijos longos sob a lua cheia
Tomar sorvete direto do pote
Vendo TV embaixo do edredom

Logo começa a nova temporada
Do seriado que sempre assistimos
E eu sem dizer o tanto que te amo
Me dá quarenta anos do teu lado

Para eu não ter chance de esquecer de nada
Para eu ter idade pra esquecer de tudo
E depois dá quarenta outros tantos
Para eu poder viver tudo outra vez.

Anderson Santos

Os invisíveis átomos do ar
em volta palpitam e inflamam-se,
o céu desfaz-se em raios de ouro,
a terra estremece em alvoroço.

Oiço flutuando em ondas de harmonias,
rumor de beijos e bater de asas;
minhas pálpebras fecham-se...
O que acontece?
Diz-me?

Silêncio! É o amor que passa!


Gustavo Adolfo Bécquer

Inventamo-nos. Somos
Eco do mesmo apelo reconhecido,
A mesma busca
Dum resgate impossível.
A mesma fome nos ergueu
Os braços
A um gesto de encontro,
Um riso,
Um pólen na viagem do vento.
E eis que o pássaro inexistente
Pousa
Concreto e tangível
Sobre os nossos ombros.


Egito Gonçalves in
http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.com/

06 Janeiro 2009



Nenhum sopro de ausência.
Só a paixão
Suave de um sol íntimo
No seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
Desejo no seu silêncio,
Luxo indolente, frescura de vértebras solares.
Intimidade perfeita
E que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
Na delícia extrema de um sossego de folhas.

O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
E em tranquila doçura de hábitos.

António Ramos Rosa